Amazônia: histórias, culturas e identidades

Organizei, juntamente com os colegas Telmo Araújo e Jairo Silva, da UEPA, uma coletânea de artigos sobre a história da Amazônia. Abaixo segue a apresentação do livro, escrita pelos organizadores.

O livro pode ser baixado clicando AQUI.

Boa leitura.

APRESENTAÇÃO

A coletânea que ora apresentamos é resultado das atividades do GPAM, “Grupo de Pesquisa Amazônia: História, Culturas e Identidades”, grupo em atividade desde o ano de 2016. O livro reúne trabalhos de historiadores e historiadoras que fazem parte do grupo e que atuam como docentes no curso de História da Universidade do Estado do Pará (UEPA), assim como de ex-alunos que tiveram suas pesquisas vinculadas ao referido grupo de pesquisa.

A maior parte dos textos é fruto de reflexões e debates ocorridos nos eventos sucedidos na Universidade do Estado do Pará, organizados pelo GPAM e pelo Curso de Licenciatura em História, tais como o “Seminário de História”, realizado anualmente, que em 2019 chegou à sua 5º edição. Os trabalhos apresentados mostram a diversidade de estudos existentes nas Linhas de Pesquisa do GPAM, que atualmente se subdividem em três principais campos, à saber: Culturas, cidade e trabalho; Culturas, etnias e identidades e; História, ciência e ensino.

O crescimento do interesse da historiografia sobre as múltiplas experiências sociais determinou a escolha do grupo pela área de concentração em História Social, na qual se busca problematizar lutas, disputas e contradições existentes em diferentes experiências urbanas e rurais, em vários territórios e temporalidades, no contexto amazônico. Assim, os estudos desenvolvidos pelo GPAM têm dado ênfase à diferentes perspectivas sociais, incluindo experiências e culturas nem sempre ou pouco observadas pela historiografia “tradicional”. Elegendo a História Social como área de concentração, a proposta de trabalho do grupo de pesquisa encontra subsídios para valorizar outros sujeitos históricos, reconhecendo a heterogeneidade de experiências sociais de homens e mulheres, de diferentes etnias e gerações, todo o conjunto de práticas e expectativas sobre a totalidade da vida. Buscando-se, assim, democratizar o conhecimento do passado, enfrentando os múltiplos desafios contemporâneos da pesquisa.

O campo de análise, como já expresso no termo inicial do título do GPAM, é a Amazônia, em particular a Amazônia oriental e paraense. A Amazônia é vista em sua diversidade de experiências históricas e campos de lutas sociais que se apresentam em vários âmbitos da vida social, tais como as dimensões da cultura, das culturas populares, etnias e racialidades, cidade e trabalho, ciência e ensino. Por consequência, os textos contidos neste livro apresentam muitas amazônias possíveis, muitas experiências de um território de muitos territórios, recortado de desigualdades e diversidades.

Desta forma, o leitor ou leitora que folhear as páginas que aqui apresentamos terá a oportunidade de conhecer a Amazônia de mulheres divorciadas, solteiras ou viúvas de Belém da primeira metade do século XIX; assim como a Amazônia das práticas terapêuticas e da intervenção do poder público em relação à varíola ou ainda da relação e tensão entre medicina homeopática e a religião espírita no Pará, nos dois últimos casos já no início do século XX. Poderá conhecer um pouco sobre a Amazônia do mundo da educação formal e de como disciplinas como física e química eram ensinadas no Instituto Lauro Sodré, em Belém, no final do século XIX e início do XX; a experiência histórica de imigrantes retratadas em processos criminais, também no início do século XX; reflexões de intelectuais sobre a identidade nacional e amazônica nas páginas de revistas semanais paraenses do século XX e também reflexões sobre os conceitos de memória e de patrimônio a partir de acervos pessoais de Vicente Salles e de Dalcídio Jurandir. A Amazônia da cultura e modos de vida de ribeirinhos da Comunidade de Igarapé Grande, em Ananindeua, ou ainda da cultura popular e musical do carimbó e de outros gêneros musicais locais e globais, também estará presente neste livro. Por fim, a Amazônia das lutas populares e sociais emerge na história de conflito da Gleba Cidepar, na região do Guamá; na organização e na luta camponesa do Baixo Tocantins ou ainda na experiência da Pastoral da Juventude e das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) nos bairros de periferia de Belém, na segunda metade do século XX.

Temos em mãos, portanto, uma obra com muitos olhares, muitos temas para muitos leitores e leitoras. Apresenta-se um panorama tão diverso e rico quanto a própria região que é retratada nesta coletânea de trabalhos. Desejamos que os textos a seguir configurem-se, assim, como uma porta de entrada para o conhecimento histórico sobre as múltiplas amazônias, ou ainda um reforço na produção científica já existente sobre essa região.

Boa leitura a todos e todas!

Os organizadores”.

Futuridades

O futuro talvez seja o fato mais emblemático da potência e da complexidade.

É esperança e morte, fatalidade e vida, distopia e crença, incerteza e utopia!

É o fato que ainda não houve, mas haverá.

A certeza de que todo o improvável é possível! Mesmo que nada ocorra.

Esperança que carrega até mesmo o terreno do mais absoluto niilismo. Um niilismo que nunca morre, pois sempre haverá um futuro.

É o que nos move por esperança e utopia, sem garantia de nada realizar.

É um outro agora desejado, um outro agora projetado, um outro agora que nunca será, pois o futuro só existe no depois.

Porém, a crença no futuro, que será, e por isso mesmo já o é em potência, nos move e, ao mover-nos, move o futuro para ser exatamente aquele novo e inédito, que virá a ser…

Nenhum futuro é o que teria sido, pois o futuro, tão presente, nunca é, sempre será.

O agora está, no fundo, cheio de futuridades, cheio de esperança de futuro.

O futuro já está fertilizando nossas agoridades. O agora está prenhe de futuro.

E o futuro está, de fato, cheio de agoridades, cheio de querências de agoras melhores, cheio de restos de agoras que insistem em sobreviver, enquanto o novo, que tudo inaugura, insiste em nascer.

A esperança não é vã: é um fato!

É tão factual e concreta quanto o futuro, que esperançamos e que virá…

A esperança é um futuro super-agorizado. Um futuro preso nas grades sólidas e cruéis do hiper-agora, mas desejoso de fugir, desejoso do devir, desejoso do que virá: o seu outro eu, a se inaugurar.

A esperança sabe que o futuro virá, para além de qualquer vontade, mas nunca imune à vontade alguma, sempre maior e diferente do que propusemos, mas nunca alheio ao devir humano!

A História não acaba… a esperança expecta e é práxis e o futuro dirá.

Esses canalhas querem nos matar!

Esses pulhas querem nos matar!

Esses canalhas, esses cruéis, esses patifes, querem nos matar!

E não é de hoje. É desde sempre! Desde há muito tempo eles querem nos eliminar!

Esses covardes, detentores do poder metálico e de armas de destruição em massa… eles querem nos matar.

Querem matar qualquer fagulha da felicidade do povo.

Do povo livre e com trabalho.

Do povo livre e com comida na mesa.

Qualquer fagulha da dignidade das mães e pais e das crianças populares, indígenas e negras.

Esses canalhas, banqueiros, investidores da bolsa de valores, querem nos matar! Milionários da improdutividade!

Esses pulhas, esses pastores milionários, detentores de impérios midiáticos, fábricas de dízimos, que tiram o pouco que o pobre já não tem em sua mesa… Eles querem nos prostar! Querem nos consumir, querem nos foder!

Esses jornalistas, apresentadores, detentores dos meios de comunicação hegemônicos, seja a televisão ou a internet; esses que espetacularizam a moeção de carne pobre, indígena e preta, de mulheres e pessoas LGBTQIA+… Esses ordinários, eles querem nos moer! Eles querem nos colocar na máquina como combustível da farsa!

Esses latifundiários, donos da terra que nem a deus pertence, senhores do agronegócio que destrói as florestas e envenena os povos; que tomaram os bosques dos povos originários, dos quilombolas, dos sitiantes, dos ribeirinhos, dos pequenos e pequenas produtores, dos camponeses e camponesas… esses escrotos! Eles querem nos enterrar sob palmos rasos de terra empobrecida e envenenada.

Eles querem nos esfolar!

Esses homens ricos e nojentos. Esses homens obesos, brancos, jactanciosos, sebosos… prostituidores de meninas pobres em todos os recantos do mundo. Esses que acreditam que são o exemplo do “bom pai”, do “bom marido” e do proprietário; o exemplo de “cidadão de bem”, “bem sucedidos”, “empreendedores”, “geradores de empregos”, cultuadores da propriedade privada, adoradores do Deus McMercado… Esses que bajulam o Deus (sic) vingativo e castrador; que lutam para sublimar suas carências e suas taras reprimidas… Esses sujeitos que contam as pilhas do vil metal; que não sabem se rezam para deus ou para Bolsa de Valores; que não sabem se constroem um tempo ou uma empresa de fachada no Panamá; que contam tanto metal, mas tanto metal, que não seriam capazes de gastá-lo durante uma vida humana…

Esses canalhas, esses pulhas, eles querem nos esfolar!

Eles querem nos moer.

Eles querem nos trucidar!

Eles querem nos deitar ao chão, nos submeter! Mas não vão conseguir!

E não é de hoje que eles querem fazer isso conosco. Eles pessoalmente fariam isso. Se não houvesse os pulhas dos pulhas, os sujeitos abjetos que fazem o serviço sujo, que são o chorume, ou são os filhotes da última ditadura do mundo subdesenvolvido.

Eles mesmos fariam, com suas próprias mãos, se não houvesse esses generais borra-botas, esses “patriotas” que aprenderam o conceito de pátria na “Escola das Américas”, em Fort Benning e em Fort Leavenworth. Esses generais ignorantes, que se orgulham das violências que praticaram no Paraguai, no Haiti e contra seu próprio povo, inúmeras vezes, tendo 1964 e 1968 apenas como exemplos de toda uma longa história de barbárie.

Esses generais obscuros, de turvo pensar, rotos, brutalizados, bestializados, obtusos e néscios; que basicamente vivem como parasitas da coisa pública, ganhando milhares de dinheiros, fruto do trabalho da maior parte do povo.  Cúpula da choldra que alimenta sua masculinidade precária nas rodas de “oficiais” decadentes e inúteis, pagos por nossos impostos,  de carne carcomida e feios; mais os suboficiais aspirantes dessa decadência, que mandam pobres soldados, tão pobres de tão índios, de tanto negros, de tão desesperançados e sem opções, capinarem o quintal dos quarteis e pintarem as calçadas de cal!

Escravocratas! Demagogos vis! Choldra!  

Eles querem nos matar!

Eles quererem matar seus soldados, na morte dos seus iguais!

Mas não vão conseguir!

Pois não é de hoje que querem nos matar, e nos mataram e matam muitos de nós, mas sobrevivemos!

1964 inaugurou uma ditadura autoritária, raivosa e assassina que perseguiu a todos e todas que se opunham. Matou e torturou crianças, jovens e adultos, cortou direitos e enriqueceu mais ainda os poderosos, apoiados que estavam nos seus cães de guardas fardados!

Esses pulhas querem nos matar! E uma forma de nos matar também é reescrever a história de forma mentirosa, como farsa.

Bolsorano, os setores do Partido Militar que ainda o apoiam, a elite econômica predadora, são todos filhos e país da última ditadura, e vivem muito bem em qualquer ditadura que mantenha seus lucros!

Contra isso só a organização popular, a reflexão crítica sobre o passado, sobre o presente e a perspectiva de futuro igualitária para todos.

Precisamos “estar atentos e fortes” e não aceitaremos a reescrita da história como falácia: golpe é golpe, violência é violência, tortura é tortura.

Não permitiremos mais nenhum tipo de morte!

Fora Bolsonaro genocida e golpista e todos os seus apoiadores militares e milicianos tão golpistas quanto ele!

#DitaduraNuncaMais

#ForaBolsonaro

Epistemologia das margens, pensamento crítico e descolonização de narrativas nas Amazônias

Um convite político-acadêmcio às companheiras/os da História e áreas afins que estudam e/ou vivem/lutam na/pela grande panície:

Simpósio Temático coordenado pelo colega Amarildo Ferreira Júnior (IFRR) e por mim (UEPA), que vai acontecer no 31º Simpósio Nacional de História, entre 19 a 23 de julho de 2021.

Segue o resumo do ST e depois o link para informações e inscrições:

Resumo:

Este Simpósio Temático pretende reunir trabalhos que discutam em perspectiva crítica as narrativas históricas, artístico-culturais e o pensamento social sobre as Amazônias nacionais e transnacionais. Por perspectiva crítica entendemos os debates surgidos em torno de um conjunto heterogêneo de epistemologias que aqui definimos como “divergentes” ou “radicais”. Tais epistemologias constituem-se como saberes/poderes anti-hegemônicos, que se pretendem anticoloniais, não eurocêntricos e críticos à ocidentalização como dominação, assim como críticos aos padrões convencionais de saber/poder assentados na heteronormatividade excludente, nos variados tipos de racismo e xenofobia, no patriarcado, nas hierarquias de classe e status e na destruição predadora do meio ambiente e dos sujeitos e sujeitas da floresta, rios e cidades das Amazônias.
Parte-se do princípio de que a reflexão histórica crítica, mais que estrita reflexão epistêmica ou acadêmica, é fundamentalmente uma posição, uma práxis, ou ainda, um engajamento consciente e ativista, no sentido de construir ciência/saberes/poderes para a transformação social e política.
Nesse sentido, serão bem vindas reflexões histórico-antropológicas que partam da crítica ao colonialismo interno, busquem a substituição da “lógica instrumental” das ciências sociais por uma “descolonização” epistemológica e ensaiem possibilidades de estudos colaborativos, coteorização e/ou partam da “sistematização de experiências” concretas dos sujeitos e sujeitas em luta, com ênfase ao trabalho junto a grupos historicamente subalternizados.

Justificativa da relevância do tema:

Considerando as diversas e importantes contribuições que, desde as crônicas de viagem, as narrativas históricas e artístico-culturais oferecem para a constituição do pensamento social sobre as Amazônias, torna-se importante a realização de reflexões críticas acerca da construção desse arcabouço e de suas inferências e interferências sobre os heterogêneos sujeitos históricos, espaços e períodos amazônicos. Isso também implica na importância de realizar a análise acerca dos procedimentos de eleição e seleção dos elementos histórico-culturais manuseados, da contribuição dessas produções na elaboração de imagens e narrativas e de sua participação na invenção histórico-cultural dessa região. No entanto, tal análise não deve somente buscar a compreensão a respeito das Amazônias, seja em suas concepções nacionais, seja em sua constituição transnacional, mas necessita engajar-se na apresentação de alternativas de transformação social e política. Com isso, justifica-se a relevância do debate histórico e historiográfico que este Simpósio Temático propõe estabelecer e sua tomada de posição pela busca de possibilidades de estudos colaborativos engajados nos esforços de descolonização epistemológica por meio de sistematizações de experiências e movimentos de coteorização que propiciem encontros epistêmicos e produção de interconhecimentos junto a grupos historicamente subalternizados, o que contribui com elaborações que partam da práxis como conexão incontornável entre reflexão teórica/acadêmica e o engajamento/intervenção nos territórios das lutas nas Amazônias contemporâneas e na crítica do pensamento social sobre/na região.

Para acessar o evento, clique aqui: Simpósio Nacional de História 2021

A elite que quase foi moderna…

A elite culta de Belém, tão culta quanto quase rica, pra variar, retoma o mito/carência da “modernidade” da Urbi. Seja em Landi, seja em Lemos ou em outras “chaves” arquitetônicas mais contemporâneas.

É o mesmo mito da elite provinciana que várias vezes quase foi moderna e vive com as lembranças de um tempo que nunca foi …

Enquanto isso, quase 70% da cidade pode ser considerada “favela”.

Civilização da baixada, das palafitas, periferia da periferia do capitalismo global, ninguém quer ser. Ou, em outra perspectiva, cidade ribeirinha, negra, a Mairi tupi, também não, né!!

Seria trágico, se não fosse cômico!

Aliás, é tragicômico!

Esperançar: ou por uma práxis revolucionária da esperança

Estava surfando na internet, mais precisamente no Facebook, e dei de cara com uma frase do pastor progressista Henrique Vieira:

Esperança. É uma exigência ética diante de uma realidade tão dura. É um impulso para criar o futuro. É uma ação coletiva para mudar a realidade. É um protesto contra toda desesperança. É uma forma de salvar o coração. É um ato de fé, uma decisão política, uma insistência na vida! Seguimos com esperança, fazendo esperança!

Obviamente que concordo totalmente com a tese de Henrique Vieira, sobretudo com as frases:

É um protesto contra toda desesperança…

É um ato de fé, uma decisão política, uma insistência na vida!…

Dai que, coincidentemente, eu estava começando a ler o livro Pedagogia da esperança de Paulo Freire. Estava literalmente nas “Primeiras palavras” da obra e filosofava sobre a tese freireana contida neste livro, mas também em livros anteriores, de que precisamos lutar com esperança e esperar ou esperançar lutando. A tese de que utopia não é devaneio abstrato, mas é combustível para ação na medida em que é ação pensada e pensamento agido e em ação, ou seja: é práxis.

É mais ou menos como se eu dissesse que para mudarmos o mundo precisamos odiar e amar, precisamos estar afetados pelo mundo e afetarmos o mundo com nossa afetação; com nossa dor, com nosso desejo, com nossa luta coletiva pela liberdade, contra a opressão. Utopia, esperança, sonho, assim, são práxis, não são independentes da ação, ao contrário, devem fazer parte da ação.

Para ficar mais claro vou citar aqui, sem buscar aprofundar “intelectualmente” demais a coisa, os fragmentos do texto de Freire, que têm muita relação com o texto de Henrique Vieira acima citado.

– Sobre a esperança como necessidade ontológica e a desesperança como o seu desvio; diz Freire:

(…) A esperança é necessidade ontológica; a desesperança, esperança que, perdendo o endereço, se torna distorção da necessidade ontológica (FREIRE, 2020, p. 14).

– Sobre a esperança ser um elemento enraizado de historicidade, não somente abstração ou teoria pura, ser esperança crítica; diz Freire:

Não sou esperançoso por pura teimosia, mas por imperativo existencial e histórico.

Não quero dizer, porém, que, porque esperançoso, atribuo à minha esperança o poder de transformar a realidade e, assim convencido, parto para o embate sem levar em consideração os dados concretos, materiais, afirmando que minha esperança basta. Minha esperança é necessária, mas não é suficiente. Ela, só, não ganha a luta, mas sem ela a luta fraqueja e titubeia. Precisamos da esperança crítica, como o peixe necessita da água despoluída. (FREIRE, 2020, p. 14  – grifos meus).

(…) O essencial, como digo mais adiante no corpo desta Pedagogia da esperança, é que ela, enquanto necessidade ontológica, precisa de ancorar-se na prática. Enquanto necessidade ontológica, a esperança precisa da prática para tornar-se concretude histórica. É por isso que não há esperança na pura espera, nem tampouco se alcança o que se espera na espera pura, que vira, assim, espera vã (FREIRE, 2020, p. 15).

– Sobre a desesperança ser um elemento desmobilizador, paralisador, que leva ao fatalismo/desesperança; diz Freire:

Como programa, a desesperança nos imobiliza e nos faz sucumbir no fatalismo em que não é possível juntar as forças indispensáveis ao embate recriador do mundo (FREIRE, 2020, p. 14).

 Sobre a desesperança ser uma distorção da esperança, fruto de uma esperança descuidada, ingênua ou desprovida de concretude/luta concreta. Diz Paulo Freire:

Pensar que a esperança sozinha transforma o mundo e atuar movido por tal ingenuidade é um modo excelente de tombar na desesperança, no pessimismo, no fatalismo.

(…)

Sem um mínimo de esperança não podemos sequer começar o embate, mas, sem o embate, a esperança, como necessidade ontológica, se desarvora, se desendereça e se torna desesperança que, às vezes, se alonga em trágico desespero. Daí a precisão de uma certa educação da esperança. É que ela tem uma tal importância em nossa existência, individual e social, que não devemos experimentá-la de forma errada, deixando que ela resvale para a desesperança e o desespero. Desesperança e desespero, consequência e razão de ser da inação ou do imobilismo (FREIRE, 2020, p. 15 – grifos meus).

Como eu vejo tudo isso:

Freire aqui parece difundir uma práxis revolucionária da esperança, uma vez que ela, a esperança, não está separada da vida prática, da vida vivida e da vida lutada. A esperança é um dos elementos do fazer histórico, é um ato (não só um pensamento), em uma palavra, é uma práxis, ou seja, uma intervenção no mundo. Não se trata de uma espera passiva ou de um voluntarismo ou, ainda, de uma ação impensada. É algo como uma utopia calculada e um cálculo esperançoso/utópico.

É um atrevimento de tentar o novo na medida mesmo em que o novo é inaugurado pela tentativa esperançosa de mudança.

É uma intervenção no mundo e uma convicção de intervir e mudar as coisas.

É uma ação que afeta ao mundo pois está carregada de afeto, está afetada pela dor da opressão, mas também pela expectativa de mudar as coisas, de pôr fim à dor da exploração das pessoas oprimidas e por isso se projeta para uma ação/reflexão/ação de mudança/intervenção efetiva.

Eu poderia até imaginar, a partir de Paulo Freire e de Henrique Vieira, que a esperança não só é uma condição ontológica, mas é também um direito de todos, uma vez que em condições de vida que deveriam ser normais (a ausente de opressão) todas as pessoas, por natureza, têm esperança de algo. A vida em si é uma busca esperançosa das coisas (ou, também, um religare para os religiosos, como Freire e Vieira). Ocorre uma  inseparabilidade de busca/ação de buscar/esperança e não só uma espera como espera.

Pode-se dizer que deixamos de ter esperança/busca na medida em que nos desesperamos/não-buscamos [redundância necessária] e nos tornamos fatalistas. Desacreditamos no próprio ser mais natural do humano, com diria Freire.

Não é fácil manter a esperança e a utopia de um mundo melhor quando a vida diária é tão dura e os poderosos/opressores parecem tão fortes. Mas temos o dever político e ético de tentar nos mantermos esperançosos. “Esperançosos críticos“, diria Freire, ou seja: tendo a esperança, a utopia, e a afetação para mudarmos as coisas e lutarmos contra as injustiças; esperança e ação como lados dialéticos e inseparáveis da vida política, de nossa prática.

E agora, mais do que nunca, num momento em que a desesperança e o desespero da maioria da população os brutaliza, os coisifica e os torna intolerante e fundamentalistas, precisamos esperançar mais ainda pois, em caso contrário, daremos a luta por encerrada e vencida. Agora a luta é mais árdua ainda.

Mas a esperança não deve acabar, pois a história não acabou. Não acabou no passado quando foi anunciada muitas vezes, não acabou agora e nem acabará. A esperança é o que fazemos dela, na matemática de nossas derrotas coletivas, de nossas vitórias coletivas, de nossas lutas coletivas.

E isso tudo é o que também costumamos chamar de História!

Esperancemos, camaradas!

Temporâneas…

Me impressiona um pouco, em parte do discurso militante, o excesso do “Eu”, da narrativa egocentrada, que projeta as lutas a partir de um “si” particularizado, hiper-individualizado e às vezes até fetichizado.

Um certo culto à performatividade de “corpos” individualizados, quase individualistas, mesmo quando fazem menção ao “corpo coletivo” . Um festejo do “Eu” que às vezes não quer que a festa acabe mesmo quando os outros “Eus”, a coletividade, o “Nós” não tem nada a festejar.

Parece que, sem o percebermos, fomos capturados por estruturas discursivas típicas do capitalismo coisificador, fetichizador e individualizador das sensibilidades.

Talvez derive daí a tendência atual em ressaltar as diferenças (que saem do campo coletivo e tornam-se praticamente brigas de indivíduos cheios de certezas!) e não as convergências críticas entre os grupos. A conflitividade dos egos dos debaixo torna-se o espetáculo generalizado para todos.

Ou, ainda, a lógica couch/auto-ajuda/empreendedora que muitos discursos militantes assumiram nos últimos tempos. Todos são empreendedores de sí, todos têm a receita de auto-ajuda de si, para sí, como modelo para o outro, todos são o couch de si mesmo vendendo a sua narrativa para os demais. A certeza de suas certezas é que alimenta o carater moralista dos discuros.

A pretexto de usarmos o performativo e o espetáculo como “pedagogia” para se chegar às massas (é o que dizem: falar a língua das “massas”), parece que acabamos alimentando a sede insaciável do ego frustrado que tenta sublimar o desejo pelo consumo de sua própria imagem, pela mercadoria de si (a mercadoria do militante ideal: moral e lacradoramente perfeito), ou seja: o fetiche.

Os discursos coletivos, do “nós”, que podem parecer um pouco fora de moda hoje em dia, ainda são o horizonte utópico que devemos buscar, independente das ferramentas que usemos (internet, Facebook, Tik Tok, Big Brother, etc,.).

Ou seja, não se trata da simples e pura crítica elitista aos meios, trata-se da refletirmos sobre as mediações que estamos construindo!

Afinal, qual seria o limite tênue, a fronteira borrada, entre o uso crítico que fazemos dos meios e o uso que os meios estão fazendo de nós?

O homem que parou.

Um belo dia e o homem cansou de andar.

Resolveu então parar. E parou.

Parou no meio da avenida movimentada. No meio da cidade.

Simplesmente parou.

No primeiro dia até que não chamou atenção.

Pessoas iam e vinham apressadas e alguém parado no meio da rua não incomodava de imediato a ninguém.

Na verdade, incomodava um pouco, principalmente os carros que passavam apressados levando pessoas de um lado a outro da cidade, como se o mais importante fosse ir simplesmente, mesmo que não se soubesse para onde.

Todavia, como era de se esperar, de tanta pressa que estavam as pessoas nos carros – preocupadas em ir, chegar e voltar – nenhuma teve tempo ou vontade para parar e retirar o homem que havia parado no meio da rua.

Nem tampouco o guarda de trânsito parecia se incomodar.

Na verdade, se aborrecia com aquela situação, pois o homem parado, bem no meio da rua movimentada, atrapalhava o trânsito e, pior ainda, estava parado. Parado, absolutamente parado, sem se mover, nem sequer piscar!

Apesar do incomodo, o guarda preferiu não parar o que estava fazendo: apitar insistentemente para que os carros apressados ficassem com mais pressa ainda e não parassem o trânsito – o que poderia prejudicar aqueles que queriam ir ou aqueles que queriam vir naquela bela manhã ensolarada.

Fazia bem pouco tempo que o guarda havia assumido aquela profissão. Havia se dedicado muito para um dia ser um guarda de trânsito e não permitiria, em hipótese alguma, que o trânsito parasse. O guarda era um homem de valor, integro e honesto como poucos hoje em dia. Além do dever da profissão sabia também, por sua experiência no marcar das horas e no observar o vai e vem dos carros, que a qualquer momento, apressado e atento, o fiscal de guardas passaria para fiscalizá-lo.

O fiscal de guardas trabalhava nessa profissão há décadas e sempre foi visto pelos mais novos como exemplo a ser seguido. Fiscalizava mais de uma centena de guardas em toda a cidade e ao chegar a cada ponto de fiscalização era enérgico em exigir habilidade, rapidez e constância no trabalho de apitar do guardas, de modo que sua missão – que era a de não deixar o trânsito parar, para atender as pessoas que vinham e que iam – fosse cumprida com rigor.

O guarda sabia que se parasse de apitar e fosse verificar o homem parado poderia ser pego de surpresa pelo fiscal e poderia, quem sabe, até ser rebaixado para outro cargo menos importante.

Nos primeiros dias a situação correu de forma relativamente normal. O trânsito da cidade não andava muito bem mesmo e, talvez, como resultado dos relatórios semanais, poder-se-ia culpar a grande quantidade de pessoas indo e vindo, sempre para os mesmos lugares, como motivo maior dos constantes engarrafamentos.

Acontece que a estranha situação começou a incomodar as pessoas que passavam todos os dias por aquela movimentada rua. Começaram a perceber que, por mais estranho que pudesse parecer, aquele homem não parecia ir para lugar nenhum.

Num primeiro momento, pensou-se que poderia ser alguém que pegou um atalho errado e acabou se perdendo. Pensou-se também que poderia ser um homem, perdendo alguns minutos de seu precioso tempo, pensando em estratégias perspicazes de no dia seguinte buscar caminhos mais inteligentes e rápidos para se chegar aonde ele queria ir, ou voltar – e desta maneira chegaria sempre mais rápido e recuperaria em poucas idas e vindas o tempo que perdeu ao parar e ficar pensando. Seria uma atitude um pouco arriscada, mas que poderia dar certo em médio prazo.

Tudo o que parecia ser não era e o homem parado continuava ali parado e parado, dias seguidos de dias, semanas seguidas de semanas.

A notícia começou a se espalhar pela cidade. De todos os lados corriam boatos sobre quem poderia ser o misterioso homem parado no meio da avenida. Uns diziam que era um louco, outros diziam que era apenas um poste de iluminação pública, uma estátua, um monumento… O que os defensores desta tese não conseguiam explicar era o motivo de terem colocado um poste ou uma estátua bem no meio da rua.

Algumas pessoas pensaram em fazer um sinal, um aviso, para o guarda e outras pensaram em descer do carro e verificarem elas mesmas o estranho ser, o que seria não só uma infração de trânsito grave como atrapalharia o fluxo constante. E, pior ainda, tal ato faria com que a pessoa que parasse para verificar a situação chegasse atrasada onde pretendia ir e mais atrasada ainda de onde pretendia voltar.

Muitos achavam que aquilo tudo não passava de uma lenda, dessas lendas urbanas de toda grande cidade… Porém, o fato é que o homem estava lá, parado, e todos podiam vê-lo!

Seja como for, as autoridades constituídas começaram a perceber o absurdo da situação. Dizia-se de rumores de outras pessoas em outras cidades que teriam também misteriosamente parado.

Um jornal sensacionalista, desses que gostam de cobrir escândalos e fazem matérias sobre OVNI’s e ET’s, tentou dar um furo de reportagem e divulgar a notícia para todo o país e para o exterior. Antes disso, porém, sites, blogs, emissoras de rádio e TV já cobriam o evento.

Dizia-se que o serviço de informação já desconfiava que isso poderia ocorrer e que, mesmo assim, o exército demorou a agir.

A oposição se agitava no Parlamento e culpava o governo de conivência.

Dizia-se que as autoridades eram na verdade marionetes de grupos misteriosos, de corporações com interesses escusos e, talvez, até da máfia.  Diziam, ainda, que o mandatário da nação não passava de um “banana” e não fazia nada.

Testemunhas afirmavam que o mesmo homem ou um homem muito parecido com ele, que também ia e vinha todos os dias ao mesmo lugar, ao sair e voltar para casa, já teria tentado parar outras vezes, mas sem sucesso.

Um deputado fez um longo pronunciamento sobre o assunto. Um ministro também o fez!

Um digital influencer protestou com cartazes em frente ao Parlamento e postou a manifestação em suas redes sociais, causando um escândalo sem proporções…

O dólar subiu e os investidores ameaçaram abandonar seus negócios no país.

Um ex-presidente se pronunciou. Informou que o governo já sabia. Teria provas irrefutáveis: “o governo já sabia”, bradava dos palanques!

Motoristas buzinavam em protesto.

Dois ministros pediram demissão. Outros tantos diziam que a esquerda tentaria tomar o poder a qualquer momento. Outros já calculavam o número de mortos e desaparecidos.

O caos se instalou.

Um atraso. Um desvio. Talvez pudessem ser tolerados – na verdade não poderiam – mas um homem parado em público. Isso era demais. O que fazer? Pensavam as autoridades.

No Estado Maior das Forças Armadas, todas as autoridades reunidas. Estabeleciam-se os planos.

Poderiam dar outro golpe, um autogolpe, como convencionalmente faziam… torturar guerrilheiros e dizer que nada disso tinha acontecido… Fazer o jogo sujo que sempre fizeram…

Um ataque rápido e direto com artilharia. Chamariam a tropa de elite das forças armadas?

Um psiquiatra para tratar o louco. Seria um louco?

Pensavam.

Talvez uma troca estratégica de prisioneiros e depois abafar o escândalo nas mídias com maciça propaganda… O problema era que o terrorista, parado, não negociava, não dizia suas intenções e nem a que grupo pertencia.

As idéias iam e vinham como tudo naquela cidade.

O problema continuava.

Resolveu-se, então!

Engenheiros, máquinas e peões na rua. Começava uma grande obra pública, com apoio das grandes empresas privadas da cidade. Outdoors anunciavam a grande inauguração. Era o progresso. Estava o prefeito, estava o ministro, o Estado Maior, ricos empresários, o presidente. Deram meio-dia inteiro – meio dia inteiro! – de feriado.

O povo clamava as inovações da grande urbe. A massa ordeiramente exaltava as inovações no espaço urbano…

Inaugurava-se o primeiro elevado da cidade. Com vários metros de altura, várias e amplas avenidas com cinco pistas de cada lado, área para trânsito exclusivo de motos, ciclovia de duas mãos, iluminação perfeita, guaritas especiais e modernas onde vários guardas poderiam o dia todo apitar para agilizar o trânsito.

O progresso, como sempre, trazia a redenção!

Embaixo do elevado uma área obscura, onde outrora havia uma grande, embora obsoleta, avenida. Já não servia aos propósitos de uma cidade movimentada.

Curiosamente um guarda armado fazia a segurança e impedia que qualquer transeunte tentasse observar a antiga pista.

O que teria lá? Por que um guarda evitando o acesso?

Ora, o importante é que o novo elevado era perfeito e deixava o trânsito fluir com toda a velocidade. Para que se preocupar com a antiga avenida? Quem perderia tempo olhando para baixo? Quem ousaria parar o trânsito?

Os carros iam e vinham.

As buzinas estavam a todo vapor naquela manhã ensolarada.

Pessoas corriam para chegar. Outras, tão rápidas quanto aquelas, voltavam apressadas.

Sempre iam a algum lugar.

O tempo passava rápido, tão rápido quanto o apito dos guardas.

Os guardas apitavam. As pessoas iam e vinham. Os guardas apitavam. As pessoas iam e vinham apressadas. Tudo parecia normal.

O trânsito fluía com rapidez e tranqüilidade.

A manhã estava mesmo ensolarada naquele dia…

Mas, de repente, em outra avenida da cidade, alguém parou no meio da pista movimentada…

Simplesmente parou!

Era tarde demais.

Nada mais seria como antes…

Chuva…

Na Amazônia não apenas chove muito, mas também chove variadamente, de muitas formas:

– Tem a chuva fina, a média, a forte e a chuva baguda;

– Aquela chuva branca, clarinha, que acompanha o sol das 14, 15 e 16 horas. Com essas, dizia-se antigamente: “Sol e chuva, casamento de viúva!”;

– O chuvisco e a chuva rápida, que cai em segundos;

– Aquela que chove bem perto de você, mas que não lhe molha;

– E aquela que parece que está só em cima da sua cabeça;

– Há aquela chuva que você quase vê ao longe, caindo sobre Belém, enquanto toma uma cerveja gelada sob o sol de Mosqueiro, Outeiro ou Cotijuba;

– E aquela que lhe encharca todo enquanto você segue seu caminho ao trampo, enquanto o seu bem-querer está tomando uma cerveja estupidamente gelada sob o sol de Mosqueiro, Outeiro ou Cotijuba;

– Tem a chuva que você vê vindo e alguém ao seu lado fala: “Corre, que lá vem ela!”;

– A chuva da esquerda para a direita e aquela da direita pra esquerda;

– A do leste para o oeste e vice-versa;

– Com vento e sem vento, a fria e a quente;

– A chuva que produz uma sauna dentro dos ônibus lotados da cidade;

– Tem a chuva que vem das ilhas, aquela que vem do Marajó;

– E aquela que vem do continente;

– A chuva que vem dos rios e igarapés;

– E tem a chuva que vem dos Andes, que desce nadando nas águas do Amazonas até chegar no Atlântico;

– A chuva intermitente que vai e volta por dias e dias seguidos;

– Aquela que mais parece um dilúvio, alaga tudo em minutos;

– Tem a chuva boa de dormir, que fica cantando nos telhados de zinco ou de telha de barro das casas de periferia;

– A chuva que ameaça, ameaça, ameaça, mas não cai;

– Aquela que cai e nem ameaçou;

– A que lhe força a parar debaixo de uma barraca de rua, da “tia” da esquina, que vende tacacá, carurú e vatapá;

– E aquela que lhe obriga a se proteger numa tasca onde vende peixe-frito e açaí;

– Tem aquela chuva chata que nos prende no escritório uma “meia-horinha” a mais, para o prazer e o enriquecimento do patrão;

– Mas tem também a chuva anticapitalista, que de manhã cedo nos dá murrinha e nos provoca a ficar na rede e dizer não à exploração de nossa força de trabalho;

– Tem a chuva com raios, com vento, com tempestade;

– A chuva que molha os rios, enfrentando-os e agitando suas águas;

– E a chuva que, de tão fininha, só faz cosquinhas na barriga das grandes marés;

– Tem a chuva boa para os curumins da periferia saírem pra brincar bola, pra correr, pra se molhar e escorregar na lama;

– E aquela que faz a molecada da Terra Firme e do Guamá pular de cima da ponte do Tucunduba;

– A chuva que facilita o trabalho dos moleques mangabezos e derruba todas as mangas maduras ao pé da mangueira;

– E ainda a chuva que faz passarinho tomar banho, gato se encolher num canto de casa e sapo passar a noite coaxando;

– Enfim, há chuvas, chuvas e chuvas…

No fundo, na Amazônia, todas as chuvas são boas e cumprem o seu papel, de trazer a vida e a morte (que na verdade é a renovação dos ciclos).

O que fez as chuvas parecerem ruins fomos nós, pessoas, humanos “civilizados”, que as isolamos no asfalto, poluímos, concretamos suas rotas milenares, desmatamos suas plantas e fontes para onde escorriam!

Transformamos chuva em desastre, em alagamentos!

Por isso que hoje tanta gente reclama da chuva, quando na verdade não deveria ser assim…

Sorte, ainda, é a das crianças amazônicas que não perdem tempo com guarda-chuvas ou reflexões como esta e devem estar correndo, agora, por todos os lados da grande planície, imersas em chuvas, igarapés, rios e felicidade!

Que chuva proteja todos os nossos curumins!

Ao som dos boca-de-ferro, sonoros e aparelhagens nos subúrbios de Belém.

Estamos em momento pandêmico e não podemos sair por aí, flanando pela cidade.

Mas se fosse nos “bons tempos”, imaginários, considerando ainda que hoje é sexta-feira, eu iria lá no Imperial, no Jurunas, jogar um celotex ou dadinho pra me distrair.

Depois aproveitaria para dar uma circulada lá com rapaziada do São Domingos ou do Rancho Não Posso Me Amofiná, afinal o Carnaval já estaria na rua, nesta sexta-feira quase gorda.

No mesmo embalo, desceria para o Guamá, passaria no Estrela do Norte ou no Clube dos Carroceiros, no Milionário ou quem sabe no 11 Bandeirinhas e lá já tomava a primeira gelada ouvindo um daqueles merengues gostosos do Ângelo Velório ou do Luis Calaff.  Não poderia deixar de ver o boi-bumbá lá no curral do Mestre 70 e depois iria tomar uma benção no 2 Irmãos, na passagem Pedreirinha… afinal um pouco de proteção dos encantados não faz mal ninguém!

Porém, antes do Guamá faria uma parada estratégica no caminho, na Condor, e aí daria uma olhadinha no Dancing ou no Beira–Mar, no São Jorge, para apreciar as novidades das meninas, ou quem sabe no Bar da Condor na beira do rio… Se desse sorte pegaria o ensaio do “jaze” do Orlando Pereira ou do Conjunto do Verbeno Costa ou ainda do sofisticadíssimo Conjunto do Álvaro Ribeiro. Como já seria quase meio-dia, chegaria até o Mangual do Patesko para comer uma saborosa casquinha de mussuan ou de caranguejo.

Adiante, subúrbio adentro, não poderia deixar de passar no campo da Terra Firme e apreciar o treino do Terra Firme Esporte Clube, com suas tradicionais cores vermelho e branco. Depois pararia na Sede da Terra Firme para tomar mais duas e calibrar o passo do caminho!

Essa seria minha rota inicial pela hipermargem de Belém do Pará. Pelo lado do Rio Guamá… Depois seguiria para o outro lado da cidade. Para sua outra margem.

Caminhemos…

Seguindo, passaria ainda no Bangú, no Canudos, e depois na Sede dos Ferroviários em São Brás. Daí atravessaria a cidade indo para as bandas da Pedreira, o bairro do samba e do amor. Chegaria ao Estrelinha ou ao Império Pedreirense, ao 15 de Novembro, ao Iris Recreativo Club ou ainda ao Santa Cruz. Pra não perder a viagem, ainda iria na Passagem Álvaro Adolfo pra apreciar o movimento e curtir um batuque e um carimbó…

Se lá pelo fim da tarde, na “boca da noite”, ainda tivesse forças daria uma olhadinha na Vila Sorriso e visitaria o Sede do Cruzeiro, o Impala, o Itamaraty e o Santa Rosa. E tomaria mais uma gelada na praia do Cruzeiro, apreciando o nascer da lua…

Tudo isso ao som de uma lambada do Vieira ou do Solano, ou ainda ao som de Pinduca, Cupijó, Verequete, Osvaldo Oliveira, o Vavá da Matinha, ou de Frankito Lopes, o índio apaixonado, ou ainda de um Waldick Soriano da vida.

Claro que depois de tanto “caminhar” tomaria mais uma cerveja estupidamente gelada, a saideira, e pediria para o ser anunciado pelo sonoro que estivesse fazendo a cobertura da festa, depois de levar um papo com o controlista da picarpe do Alvi-Azul, do Diamante Negro, do Rubi, do Brasilândia, do Príncipe Negro… e ai por diante.

Afinal de contas, hoje é sexta-feira e ao invés de ficar em casa tomando meu guará-suco eu bem que poderia apreciar a cidade seguindo o som dos bocas-de-ferro espalhados pelos postes de iluminação pública ou seguir o chamado dos sonoros e aparelhagens espalhados pelas sedes dos subúrbios Belém do Pará…

E vocês, que rota fariam?