#NãoTeveGolpe? Ou o “golpe está ai, só cai nele quem não o derrubar primeiro”

Não dá para comemorar o mais do mesmo! É necessário irmos mais. Hoje é 8 de setembro, não teve golpe, mas também não deixou de ter!

Vi que muitos companheiros e companheiras já levantaram a hashtag #NãoTeveGolpe para comemorar o fato de que ontem, 7 de setembro, não houve um golpe em termos clássicos, com tanques na rua, militares reprimindo a população, prisões, fechamento do STF e Congresso etc.

Me somo a esses companheiros e repito: #NãoTeveGolpe.

Mas fico com uma leve impressão que compartilho com vocês: o mais adequado seria, de fato, a hashtag #NãoTeveGolpe ou a hashtag alternativa: #UfaNãoHouveGolpe ?…

A pergunta perece ingênua e a diferença pequena, mas não é tão pequena assim.

Pois vejamos:

– Bolsonaro, mesmo estando em um momento de desgaste, perda de credibilidade em suas bases populares e até mesmo em setores da burguesia nacional, conseguiu levar milhares de pessoas para a rua;

– Bolsonaro não deu um golpe mas disse, e com certeza deve acreditar no seu próprio delírio, que começou um novo momento da história do país e que o STF não tem mais credibilidade nenhuma. Ele deu o seu recado e fez um ato político com muitas ilegalidades, mais uma vez. E continua lá;

– Muito provavelmente Bolsonaro fez todo esse reboliço em parte financiado com dinheiro público, o que em si já merecia seu afastamento (mais uma vez). E usou dinheiro privado que ainda não sabemos de onde veio. Mas o fez, mais uma vez;

– Bolsonaro parece ter conseguido dar um pouco de “gás” para suas bases populares que pareciam estar esmorecidas nos últimos meses. Dizer que teve menos gente do que o previsto não anula o fato de que teve milhares de pessoas indo à rua. Inclusive caravanas de vários estados do Brasil rumo a Brasília e mesmo atos menores em cidade pequenas do interior do Brasil, com carros-som, motociatas etc. Não se enganem com a foto que circula na rede com a imagem de Brasília e a hashtag #flopou, indicando que as manifestações teriam sido um fracasso. Podem não ter sido o grande sucesso esperado pelos fascistas, mas ainda assim apresentaram um público significativo;

– Aceitemos, Bolsonaro fez a pauta: tornou (mais uma vez) o 7 de setembro uma data da extrema direita “patriótica” e mofada. Não que essa data tenha sido em algum momento um símbolo da resistência popular, das lutas sociais etc. Mas, não nos enganemos, símbolos como a bandeira do Brasil, a “pátria” etc., são sim símbolos populares e milhares de pessoas vão todos os anos assistir os desfiles militares por gostarem da festa “cívico-militar” e por terem esses desfiles (inclusive os desfiles escolares da época) como elementos importantes das suas culturas populares. Bolsonaro usou e abusou dessa simbologia e, em boa parte, pautou a rua neste dia. [PS.: Isso não tira o mérito de quem fez o contraponto indo à rua. Na verdade valoriza mais ainda a papel de enfrentamento dos Gritos dos Excluídos e Excluídas de ontem];

– Um último ponto: para mim o golpe já está entre nós, em termos práticos e simbólicos, desde pelo menos dois momentos: 1) Em 2016, por motivos óbvios. 2) Quando o termo “golpe” passou a circular livremente na gramática política nacional (televisão, internet, rádio, falas parlamentares, falas judiciárias, falas do genocida, falas cotidianas da população etc.) sem causar horror, repulsa coletiva imediata e reação contrária imediata.

Ou seja, (mais) este ato de discurso golpista (efetivado ou não) mantém uma tendência e mantém o fato de que o governo Bolsonaro segue fazendo o que se propõe fazer, coerente consigo mesmo, fascista, delirante e autoconfiante! E segue realizando boa parte de sua pauta de destruição dos direitos e pilhagem das riquezas nacionais (que tem apoio de parte significativa da elite que mesmo não o tendo como plano A ainda o vê como necessário, até aparecer algo melhor para a direita e que possa competir com o Lula, por exemplo). E as demais “instituições”, a reboque, uma vez que até aqui, de fato, não impediram que as permanentes ameaças criminosas de um golpe continuassem.

Por isso, apesar de não ter dado um golpe de fato, Bolsonaro fez muito, muito barulho. Se ele está em um momento de maior fragilidade e perdendo forças, de um lado, segue atacando (coisa aliás que sempre fez e sempre fará) e mostrando para a direta liberal, para a esquerda em geral e para todos, que não é carta fora do baralho.

Ou vocês acham que, agora que não deu um golpe, Bolsonaro vai se acomodar e viveremos uma linda fase pós-quase-golpe, tempo do #NãoTeveGolpe e império dos memes festivos?

Em outros termos, o Bolsonaro continua lá, fazendo o que sempre fez, amaçando golpes, e isso por si só já é um fato criminoso, tenha ele realizado ou não o golpe. Com Bolsonaro, o golpe sempre esteve, sempre está e sempre estará aí, pairando no ar.

O golpe está aí, só cai nele quem não o derrubar primeiro!

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