Belém e sua relação desamorosa com as áreas verdes

Um fenômeno que sempre me intrigou em Belém e que acho que deveria ser estudado antropológica, sociológica e historicamente, de modo a contribuir para o poder público agir/intervir e tentar mudar:

– O desapego da população de Belém com a coisa pública, particularmente os espaços relacionados ao verde, ao meio ambiente. E o desapego da população à coisa privada relacionada também ao verde e ao meio ambiente.

No caso do desapego com a coisa pública, particularmente com áreas verdes, espaços com árvores, jardins etc. possivelmente o fato se explica pelo consumismo, privatização/patrimonialização dos espaços/serviços coletivos, elitismo e fobia de classe ao “povo” e à rua etc. Todos essas, características da sociedade brasileira, capitalista periférica, em geral: que fazem com que a classe média prefira o shopping à praça e evite a rua por causa da “criminalidade”; além de privatizar aquilo que deveria ser coletivo, por exemplo construindo calçadas privatizadas, estacionando na ciclovia, estacionando em praças, jardins e, quando vão para o veraneio, o estacionamento na areia da praia etc.

E aí entra o típico fetiche do automóvel do belenense, também um elemento do consumismo em geral, mas que pra mim é muito mais grave em Belém do que em qualquer outra cidade brasileira.

O belenense típico tem verdadeira idolatria ao seu carro, prioriza que o veículo seja estacionado a meio metro de onde o seu dono vai ficar, tanto faz que fique sobre um jardim, sobre uma ciclovia, sobre uma faixa de pedestre, sobre a vaga do cadeirante, dentro da praça onde crianças brincariam. Tanto faz! O carro tem que passear colado ao dono, quase como se fosse um cachorrinho na coleira. Não é à toa que o belenense típico detesta pagar impostos, odeia mais ainda pagar o IPTU, mas adoraria que a Prefeitura fizesse estacionamentos para seus carros em todas as ruas, calçadas, praças, etc.

Exemplos do desapego da população com os espaços verdes públicos, temos muitos:

1. Até pouquíssimo tempo a Praça do Carmo tinha virado estacionamento, todas as noites. Lembram? Foi necessário colocarem barreiras físicas para que os motorista se ligassem de que dentro da praça não poderiam estacionar;

2. A Av. 25 de setembro, com um belíssimo canteiro central com árvores, totalmente abandonado, sujo e cheio de carros estacionados;

3. O Horto Municipal, que mesmo sendo uma praça cercada, para crianças, tem uma parte interna de sua área feita de estacionamento;

4. Novos parques e praças que são construídas tendo praticamente metade da área, que poderia ser verde e de lazer, feita de estacionamento para os “clientes” automobilizados. Esse é o caso do Portal da Amazônia onde os ciclistas, skatistas, crianças, idosos e pedestres competem com os carros estacionados. E a nova praça Porto Futuro, que além de ter sido entregue à população inacabada, quase não tem arborização e tem um imenso estacionamento que é quase do tamanho da praça propriamente dita, área essa que poderia ser espaço verde de uma cidade onde o sol não brinca em serviço….

5. Outros exemplos não faltam… Basta andarmos por Belém que veremos lixo sendo jogado nos espaços verdes ainda existentes, carros estacionados por todos os lados, árvores sendo derrubadas e nenhuma sendo colocada no lugar, mangueiras sendo envenenadas para morrerem “sozinhas”, etc.

O desapego com as áreas verdes e “naturais” de Belém chega à margem do surreal. Vou dar um último exemplo:

– Certa vez estávamos no Horto Municipal com nossa filha e o funcionário estava insistentemente molhando a areia da área do parquinho com uma mangueira. Ele foi molhando tudo até que não restou quase espaço onde minha filha estava brincando, então perguntamos porque ele estava molhando a areia da parte onde as crianças brincavam. E ele disse que os frequentadores reclamavam que a areia do parquinho fazia muita poeira e incomodava as crianças; dai que ele molhava a areia do parquinha para ela ficar menos empoeirada…

Isso mesmo: a areia estava empoeirada!

Onde já se viu, em Belém, um parquinho com areia empoeirada!

Por último, o outro ponto que me deixa ainda mais intrigado em Belém é o desapego que as pessoas têm pelas áreas verdes em suas próprias casas, um espaço para jardim, por menor que seja, ou mesmo um quintal (cosia rara hoje em dia em Belém – devido à pobreza/favelização, de um lado, e à especulação imobiliária, de outro). O desapego que essas pessoas têm por essas áreas que são exclusivamente suas, que já são privadas. É impressionante vermos as pessoas cimentarem seus quintais, derrubares as árvores para “limparem” o terreno e, muitas vezes, não plantarem nem uma samambaizinha humilde para deixar verde o ambiente. Isso é algo muito comum em Belém. Já vi inúmeros “quintais” totalmente cimentados, “lajotados”, desérticos, tendo uma boa área onde poderiam existir árvores de médio e até grande porte. Mas não há nada, só cimento!

Dou mais um exemplo pessoal: minha filha já estudou em uma escolinha que tinha uma árvore no quintal/área de recreio. Tempos depois a diretora derrubou a árvore, alegando que “sujava” o ambiente e que as raízes quebravam o calçamento da área etc. Meses depois a mesma diretora fez uma coleta com os pais para construir uma cobertura na área, pois (vejam só!), ficou quente demais depois que derrubaram a árvore… Bingo!

Esse é um fenômeno interessante pois se trata da mesma cidade onde todo mundo, todo santo dia, reclama do calor infernal… Esse desapego ao verde em Belém, que claro, se explica muito pelo consumismo, elitismo, fobia das elites ao “povo” e coisa pública, patrimonialismo, fetiche do automóvel, fetiche ao shopping center e a tudo que tem vidro e ar-condicionado etc. é grave. E certamente tem explicações locais que realmente eu gostaria de entender.

Nem todas as cidades grandes têm essas características. Inclusive cidades que no imaginário social são vistas como “selvas de pedra” a população às vezes faz de tudo para manter uma pequena área verde que ainda resta. Aqui é o contrário.

Realmente eu gostaria de entender a lógica desse fenômeno, como chegamos a isso e como isso poderia ser revertido pelo menos em parte por políticas públicas.

E nós ainda estamos “cercados de verde”, como dizem por ai… “Cidade das Mangueiras”… supostamente.

Pelo menos até que se asfalte todo o Utinga, se assorie e polua todo o Cumbú, derrubem os canteiros centrais de ruas como Duque, 25, Marquês, para construção de mais vias de asfalto e se faça paisagismo com “arquitetura desértica” na Praça da República e Batista Campos…

Mas a culpa do calor infernal é do sol!

De quem mais seria?…

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