Três breves constatações sobre a prática política das esquerdas

1. Corretamente importantes setores marxistas da esquerda reconheceram seu débito com perspectivas analíticas não exclusivamente “classistas”. Incorporaram as interseccionalidades raça/gênero à classe.

Obviamente que este mérito se deve muito mais aos “novos” movimentos sociais do que propriamente aos marxistas, (ex-)ortodoxos, que a algum tempo incorporaram tais questões em sua maneira de ver o mundo. Ou seja, os movimentos que atualmente difundem as ideias de interseccionalidades (particularmente o feminismo negro) forçaram uma revisão das formas de ver as contradições sociais por parte do conjunto das esquerdas, incluindo aí os marxismos.

Obviamente que isso não é um fenômeno novo, mas pode-se dizer que hoje o “senso comum” do pensamento progressista, e da esquerda de base marxista, já reconhece que sem as interseccionalidades não dá para fazer luta nenhuma. Esse se tornou um ponto comum na gramática das lutas coletivas da última década.

Porém, a meu ver, para todo o pensamento progressista, seja marxista ou não, o ponto fraco das interseccionalidades é ainda um tema que pouco se discute: as regionalidades/localidades. Sobretudo em um país como o Brasil, em suas dimensões geográficas gigantescas e com todas as suas diversidades/desigualdades intraterritoriais.

Nossas interseccionalidades são quase sempre de raça/classe/gênero (já melhoramos muito!), mas pouco raça/classe/gênero/região/localidade. Por isso a Amazônia, por exemplo, quase sempre vai a reboque das demandas da intelectualidade de esquerda sudestina que, como a intelectualidade sudestina em geral, constrói historicamente a ideia de “nação” e de “subversão” a partir do seu local de experiência política.

Na Amazônia, ou no Centro-Oeste etc. as demandas são outras. Ou, melhor dizendo, as mesmas demandas são constituídas de formas diferentes, com peculiaridades que recortam os temas raça/classe/gênero de forma específica. Mantemos um colonialismo interno na prática política da esquerda em vários temas. Isso precisa ser revisto! [Ainda vou falar mais sobre isso nos próximos dias quando tratar em outro poste do tema do “extermínio da juventude” em contexto urbano amazônico. Por hora fica a constatação].

Por fim, talvez pudéssemos incluir ainda a questão da geração ou etariedade. Pelo menos no que diz respeito às formas de ativismo… Pois é visível que muitas das práticas políticas do presente, sobretudo os ativismos virtuais, decorrem de uma postura de “nova geração” (geração 2013?), que ainda não foram totalmente incorporadas pelas antigas gerações de ativistas/militantes. Assim como as novas gerações não incorporaram ao todo a memória e formas de luta dos setores mais antigos (sindicais, partidários, por exemplo).

Daí que o “apartidarismo” ou “antipartidarismo” das “novas” esquerdas não deixa de ser, também, em muitos casos, uma diferença de método fundamentado numa diferença geracional. Muitos dos “novos/novas” não sabem muito bem o que faz um partido político ou um sindicato e nem está muito interessado em saber! Mas esse afastamento também decorre do fato de que a prática antiga (partidária e sindical, mantenho os exemplos) tenha estagnado, envelhecido mesmo, e se burocratizado, impedindo a comunicação com as formas, espaço e práticas de luta do presente.

Esse intervalo geracional impede que os “novos/novas” reconheçam o que foi “bom” do legado dos antigos (partidos e sindicatos) enquanto fazem a crítica correta sobre as práticas envelhecidas e burocratizadas, de um lado. De outro lado, o intervalo geracional impede que os “antigos” se oxigenem tanto em práticas, quanto em espaços e formas de ação política com os “novos”.

Assim, a aparente dicotomia entre ativismo “virtual” versus ativismo “real”, pode ser na verdade uma dupla incompreensão (também geracional) de cada um desses lados sobre o outro; uma vez que todos os espaço são importantes nas suas especificidades e, no final das contas, pertencem ao mesmo mundo de estruturas de poder globais: sejam os espaços políticos “reais” ou virtuais, da rua ou parlamentares, sindicais ou “da quebrada”, “nós por nós”, etc.

Sinais do tempo!

2. Paralelamente, desde o pico da última (e atual) grande crise cíclica do capitalismo (“oficialmente” 2008), que levou a uma reconfiguração da vida política mundial, os cientistas sociais e intelectuais fizeram as pazes com as “estruturas”, particularmente as macroeconômicas. Vejam só, o capitalismo existia então, não era uma ficção. O que é comprovado pela atual espoliação ultraliberal de Guedes/Bolsonaro e Cia.

Bom, mas isso nos leva a um tema importante, que é:

– Se o capitalismo como sistema econômico realmente existe (as estruturas existem, vejam só!) e a sua característica fundamental é (1) a constituição de grupos detentores do capital e (2) grupos vendedores da força de trabalho e excluídos do capital (independente do nome que tenham: proletariado ou uberiariado), a categoria classe volta a ser fundamental. Como sempre foi para o pensamento marxista.

Logo, alguns marxistas não estavam totalmente errados em ressaltar a classe, afinal. Estavam errados em não a relacionar com as demais estruturas: raça/gênero. E todos, marxistas ou não, permanecem com problemas ao não somarem à raça/classe/gênero temas como região/localidade e geração/etariedade, entre outros.

3. A boa síntese desse processo todo seria não perdermos o sentido de totalidade de nossa interpretação/práxis no mundo. A herança de nosso tempo é que, por mais difíceis que as coisas sejam e por mais fragmentárias que as percepções estejam, temos uma grande chance de juntar coisas, muito mais do que de separá-las.

Precisamos, portanto, de novas sínteses!

No capitalismo tudo que é sólido desmancha no ar, já dizia Marx. Cabe às esquerdas (marxistas ou não) (re)construírem as novas sínteses, daquilo que será o novo, sobre as ruínas que se encontram sob nossos pés!

Metamorfoses

Quando certa manhã a modesta barata acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamoforseada num monstruoso Humano. Que susto teve ela que até então não passava de um simplório inseto que durante a vida toda passou os dias a correr pelo chão atrás de migalhas do tempo e da natureza…

De imediato percebeu que seu imenso e estranho corpo não cabia mais no mundo em que vivia. Ao se mover, mesmo que com muito cuidado, esmagou muitos de seus parentes e amigos espalhados pelo chão. De súbito o ex-inseto experimentou a sensação do raciocínio. Começou de imediato a refletir sobre o ser e o não-ser, o devir, o finito e o infinito, a existência ou não de Deus e as possibilidades do mundo da matéria.

Seu primeiro raciocínio foi o da unidade das coisas, o Uno. Discorreu sobre o átomo, o vazio e o movimento. Seria o mundo formado pelas regras da matemática? O úmido ou os números seriam a base de tudo? Refletiu e Refletiu.

Neste intervalo de tempo levantou-se e sentiu asco pelas pequenas coisas. O mundo era seu. As miudezas não lhe interessavam mais. Numa pisada matou pai e mãe! Num rompante, na fração da fração do tempo, comeu seus próprios filhos como se obedecesse a fúria de um titã.

Olhou ao seu redor e estabeleceu seu limite. Urinou na terra e de lá cresceram estacas de madeiras com arames e, mais tarde, grandes muralhas de sete portas, donde sentou em um trono e continuou a refletir! Os que ficaram de fora, os que não tinham morada, se curvaram ao seu poder e foram escravizados!

E a justiça o que seria? Pensou. “É o governo justo e bom sobre os governados”, disse um!

Devorou-o de imediato! Não caberia a um escravo refletir sobre coisas humanas.

“A justiça senhor, é o governo do injusto sobre os homens!”, disse outro!

Refletiu! Explique melhor!

“A justiça é o governo do mais arguto, aquele que se faz parecer bom, mas que por habilidade e arte pratica todo tipo de ação que lhe leve a tomar o poder e a ter ganhos com isso! O incompetente, aquele que é desprovido da arte e do artifício da esperteza e maldade, será o infeliz! Será o governado! Justo é aquele que governa para os amigos e para si e prejudica os inimigos, pois assim se manterá no governo para sempre e desfrutará de todas as benesses daí advindas!”. Disse o subalterno.

Dito isso, o humano, certo de que estava certo, nomeou o discursante seu Polémarkhos, seu senhor da guerra! Constituiu um exército para o caso de necessidade do uso da força, quando a imagem do bom governo não fosse suficiente!

Mas o que seriam os ganhos do governo justo – aquele que governa para os amigos e não para os inimigos, aquele que pensa em si e em seu lucro? Seria a honra, a virtude, a retidão ou a bravura? A honra se evapora no tempo, se esvai com a fumaça, se modifica no contar das histórias – basta termos um bom contador de histórias e a honra se inventa! A virtude é a verdade de quem venceu, o certo de quem acertou, contra o errado de quem perdeu – a virtude é a força! A retidão é o caminho que o forte caminha, é o destino que ele escolher, é a sua linha reta, o caminho que esmaga os caminhos adversários! A bravura é a necessidade de dominar povos e servos – o bravo foi aquele que venceu!

Tudo isso pensou, o monstruoso Humano! E então, depois de muito meditar, escolheu um metal de ouro como prêmio para a ação dos justos! Estabeleceu e criou o precioso metal, o comércio e todas as atividades relacionadas a isso.

Mas a vida parecia vazia e sem forma para a maioria das pessoas. E a terra, mesmo formada por uma imensidão de servos mais ou menos passivos, parecia sem formato. E havia trevas sobre a face do abismo, e muitas vezes o monstruoso Humano se movia sozinho sobre a face das águas, que em algumas situações ameaçava tornar-se turbulenta. Por refletir mais, decidiu criar o templo, onde as coisas se religariam, ou as coisas se ligariam, a alguma outra coisa, que até então faltava e inquietava as mentes! O importante era ligar o que faltava. Ligar a curiosidade humana a algo que lhe saciasse a inquietação – pois a inquietação do governados não é boa para o governo Humano! E essa coisa era o templo!

“Haja o templo”, disse! E houve o templo. E com o templo multidões se formaram. E tantos e tantos outros templos foram erguidos. Onde era antes um imenso deserto, torres imensas foram erguidas, onde várias línguas se descruzavam e se cruzavam novamente. Aqueles que não tinham cercas em suas terras, e que não tinham justiça em sua morada, e que não tinham templo portentoso erguido em sua casa, ou mesmo os que tinham templos bárbaros, foram todos subjugados e escravizados.

Fez-se o Homem, a cerca, a justiça, a guerra, o precioso metal e o templo. O que faltava ao metamorfoseado, monstruoso Humano?

E então caminhando por seu reino imenso, circunspecto e com a testa franzida, pensou nas distâncias dos lugares, no demorar das horas, na vagareza das carroças guiadas a bois, na lentidão das sementes brotando, na desordem dos animais em cio e dos servos em ócio. Pensou na pequenez dos escravos pusilânimes, e no vagar dos dias, e na lentidão das estações, e na excessiva liberdade da natureza, e na rebeldia das mulas que empacavam, e na variabilidade do sol e da lua, que apesar de nascerem e morrerem todos os dias, atrasavam em frações de segundos a cada centena de anos. Em tudo isso ele pensou!

Preocupado e temeroso, o monstruoso Humano meditou por muito tempo, por séculos e séculos, até que chegou a seguinte ideia: construir a máquina!

E a primeira máquina que construiu, foi a máquina de Khronos, que comia o tempo com se engolisse filhos! A máquina que disciplinava mundos e impedia que o tempo fosse gasto de maneira errada e indisciplinada. A máquina que dizia quando o sol deveria nascer e quando a lua deveria clarear a noite! A máquina que dizia quando o galo deveria cantar e quando o servo deveria calar!

A segunda máquina que criou, foi a máquina de fazer coisas, que nada fez além de construir mais do mesmo daquilo que já existia, agilizando o tempo e aumentando a produção. Foi importante para aquele momento e para a história do monstruoso Humano.

A terceira máquina que criou, foi a máquina de fazer máquinas! Ela disciplinava os tempos e os gostos, dava aos humanos as necessidades mais dignas, fazia deles mais do que eles mesmos, os alienava de serem apenas seres humanos! Toda máquina era uma parte dos homens que trabalhavam nela, mas ao mesmo tempo os produtos que de lá saíam eram maiores e melhores que os seres humanos. Essa máquina não só saciou o desejo por coisas, como criou outros desejos de coisas que antes não existiam.

O fruto maior dessas primeiras máquinas, de todas elas juntas, foi o Produto ou Mercadoria, que também era conhecido como Coisa/coisa. Ela era filha da máquina, que por sua vez era filha do homem e da mulher, mas a Coisa/coisa era melhor que os homens e mulheres, pois era o desejo último do ser humano. Guerras se faziam pela mercadoria. Todos e todas as queriam!

E então faltava uma ligação entre o homem e a Coisa/coisa, faltava outro religare, alguma coisa que desse aos servos a sensação de que eles eram tão importantes quando as mercadorias que criavam. O monstruoso metamorfoseado criou, então, a sua última máquina: a máquina de fazer humanocoisas.

O humanocoisa era vendido em peças, algumas mais baratas outras mais caras. Ele aparecia nos jornais e TVs. Em outdoors e revistas. Todos e todas queriam ter e ser humanocoisas. Muitos compravam partes mecânicas e colocavam em seus corpos para se tornarem humanocoisas. Outros vendiam partes de seu corpo para outras pessoas se tornarem humanocoisas. Outros tantos vendiam pessoas inteiras, que eram recortadas, divididas, mutiladas, registradas, carimbadas e vendidas em pedacinhos para as necessidades das máquinas que faziam humanocoisas. Como em qualquer produção existia o mercado consumidor e o mercado fornecedor de matéria-prima, de peças metálicas e humanas; de parafusos e braços e mãos; de chapas de aço ou silicone e peles; cabelos, olhos, pernas, narizes e circuitos e gesso e bisturis; etc.

Foi a fase de maior prosperidade do governo do monstruoso Humano metamorfoseado, especialmente em favor de seus amigos, na prática da justiça Humana. As pragas e as doenças desapareceram. As baratas e outros insetos malditos não mais existiam, ou pelo menos tinham aparentemente desaparecido. As pessoas não mais morriam de águas em sangue; as moléstias causadas por epidemias de rãs desapareceram; homens e mulheres, crianças e velhos ficaram livres de infestações de piolhos; os cadáveres, as comidas, os animais e os miseráveis se tornaram imunes aos zumbidos e a presença de moscas; as sarnas não mais grudavam nas pessoas e nos animais de bem e de estirpe; ninguém mais morria de úlceras; nem mesmo as guerras usavam mais saivadas de fogo que caiam do céu, e as tempestades não mais jorravam granizo que antes perfuravam as cabeças e as casas das pessoas; os gafanhotos não mais amedrontavam os humanos, e muito menos amedrontavam os humanos amigos do monstruoso Humano; os primogênitos das boas famílias não mais morriam e as heranças ficavam com aqueles que praticavam a justiça aos seus amigos e a injustiça a seus inimigos e governados; por fim, as trevas pareciam estar cada vez mais distantes do ser Humano e das pessoas próximas.

Contudo, apesar de toda a aparência de felicidade e de bom governo, alguma coisa em essência estava errada.

Primeiro, o metamorfoseado percebeu contente que cada vez mais a justiça era bem feita, já que cada vez mais o justo governava para seus amigos e não para os inimigos! Mas isso, por sua vez, lhe exigia mais e mais da ação do templo e do exército, para controlar a multidão injustiçada! A multidão dos homens e mulheres injustiçados sempre era maior e sempre crescia mais.

Por fim, o metamorfoseado percebeu que as pessoas estavam cada vez mais felizes com a nova face do humanocoisa. As pessoas tinham novos braços, novas cabeças, novas pernas, novos olhos, e eram assim tão belas na medida exata de que não mais eram elas mesmas! Eram assim tão belas na medida exata de que menos se pareciam com o humano originário…. Nem mesmo o monstruoso Humano metamorfoseado se parecia com ele mesmo, pois que já havia novamente se metamorfoseado num monstruoso HumanoCoisa. E era cada vez mais belo e poderoso, em semelhança inversamente proporcional à sua aparência inicial. Tinha assim novos braços e novas pernas, nova face e novos órgãos. Parte metálicortante, parte em pelecortável: essa era sua nova imagem!

Porém, a contrapeso a tudo isso, existia muitos e muitos humanos/humanos infelizes. Esses eram exatamente a multidão injustiçada. Eram aqueles que não conseguiam ter a máquina que controlava o tempo, nem a máquina que fazia coisas, nem a máquina que fazia máquinas, nem a máquina que fazia humanocoisas. Muitos e muitos estavam frustrados, pois não conseguiam se tornar humanocoisas. Esses eram apenas engrenagem, mas nunca chegavam a ser mercadoria! Essa população infeliz era em número cada vez maior e eram cada vez mais distantes em aparência dos humanocoisa. Animalizavam-se, pois não conseguiam ter a forma do humanocoisa. Permaneciam tristes humano/humanos.

Em verdade existiam também aqueles dentro dessa multidão que conscientemente não queriam ser humanocoisas e preferiam ser o que sempre foram: humano/humanos. Contudo, esse grupo corria contra a corrente, e mesmo organizado não conseguia sequer desanimalizar a maioria humano/humano, que a essa altura já se encontrava embrutecida, frustrada e alienada, cada vez mais fora de si, sem si, sem ser! Por outro lado esses humano/humanos marginais e organizados não conseguiam se opor efetivamente aos poder dos humanocoisas.

Aos poucos se constituiu como verdade oficial que os humano/humanos eram feios, decrépitos, sujos, de dentes pretos e podres, de hálito sujo e fétido. Trajavam roupas sujas e farrapos e andavam no chão se rastejando. Os humano/humanos eram como insetos, eram como ratos, como lesmas, como cobras, como cães sarnentos, representavam tudo o que a Humanidade tinha deixado de ser desde o início da evolução, representavam tudo o que o novo humano, o humanocoisa, governado pelo monstruoso HumanoCoisa, não era mais. Em suma, os humano/humanos eram como havia sido a humanidade no início dos tempos: eram como baratas, que sempre ameaçavam contaminar tudo, varar de todos os lugares, surgir de qualquer brecha do chão, se espalhar no corpo das pessoas limpas, subir nas mesas e comer os banquetes nobres, mesmo sem serem convidadas. Ou ainda eram baratas que a qualquer hora poderiam ocupar o lugar dos humanocoisas, governados pelo metamorfoseado e monstruoso HumanoCoisa. E essa possibilidade fazia o metamorfoseado viver em noites mal dormidas, mesmo sabendo que ele ainda estava no poder…

E foi então que o HumanoCoisa não mais dormia, temendo o pior. E suava a noite, e delirava, e ficava em febre. Olhava ao espelho e não mais se reconhecia. E de seu lado, acima e abaixo, ele não reconhecia mais as pessoas, elas eram diferentes. Não eram mais pessoas, eram coisas! Cada coisa com sua forma, ou com sua deformação. Coisas grandes e pequenas, gordas e magras, baixas e altas, brancas e pretas, com pés e com patas. As pessoas já não falavam, pois de sua boa saia fumaça, fruto da queima de combustíveis e metais pesados. E de seus olhos saiam feixes de luz, como de carros ou jatos avisando que estavam passando em alta velocidade. E de suas narinas cada vez mais pareciam sair jatos de enxofre, ou outra coisa qualquer menos Humana e humana.

Anunciava-se o dia em que o humanocoisa seria totalmente filho da máquina, e essa, por sua vez, não teria pai nem mãe, seria simplesmente a razão das coisas. A máquina seria a razão e a origem de todas as coisas, e as coisas seriam o fim, o objetivo último, seriam o devir de todos e todas!

O Grande Coisa tinha as noites passadas em claro, milhares de dias e dias sem descansar, e mesmo assim, acordado, trazia quilíades de pesadelos que lhe atormentavam. E nem mais o tempo ele conseguia controlar. Perdia as horas! Não mais dominava o dia e nem a noite! Ele apenas girava desconfortavelmente na engrenagem das coisas. Até que em uma noite, não mais podendo dominar o sono e a natureza, ele adormeceu…

E quando certa manhã a coisa acordou de sonhos intranquilos, tenebrosos e reveladores, encontrou-se em sua cama metamoforseado num monstruoso inseto, uma barata imensa e sem fim! Uma barata metálica e que gemia um som de ferro e chamas. E estava tomado por todos os lados por muitas e muitas baratas. Baratas fétidas e sujas, baratas curiosas e barulhentas, baratas com milhares e milhares de bracinhos, que derrubavam as cercas de seu quintal e comiam a comida de sua mesa… As baratas haviam sobrevivido a tudo, mas já não eram baratas, e nem eram humanos, nem eram máquinas, e nem eram coisas…

Tudo havia se metamorfoseado!

Tudo agora era sem forma, tudo agora era deformado, tudo agora flutuava no abismo, e nada mais estava em seu devido lugar, nem a natureza e nem a história…

Publicado em 2012, no MimComigoMesmo!

Considerações intempestivas sobre as vantagens da morte

Em verdade a morte é o grande dia da vida de qualquer pessoa, já que em geral todos os seus erros são perdoados e se ele for uma pessoa pública ou conhecida na sua redondeza vão aparecer depoimentos e depoimentos dizendo que ele foi um bom homem ou uma boa mulher.

De fato, até os inimigos nessas horas costumam chorar sobre o caixão do antigo adversário e proferem discursos voltairianos do tipo: “Não concordo com uma palavra do que dizias, mas defenderia até o último instante seu direito de dizê-la, caso você estivesse vivo. Porém, tendo em vista que você está morto, tanto faz como tanto fez!” (obviamente que essa última parte é falada em silêncio, para que os familiares não percebam!).

Esses depoimentos são apenas uma das vantagens de se estar morto. Outras ainda podem ser citadas. Pois vejamos:

O café! Velório que é bom tem que ter café! E muito café! E baralho também. Na verdade o café acompanha o baralho da mesma forma que as velas acompanham o morto. Sobretudo nos velórios populares que já participei, o baralho é quase tão importante quanto o defunto, e quanto o café. Diria até que muitos jogadores de baralho esperam ansiosamente o vizinho moribundo morrer para garantir pelo menos uma noite inteirinha dedicado ao seu jogo preferido (sem que a sociedade o condene como viciado e vagabundo). Deve-se considerar ainda que a economia de café nas casas da vizinhança do defunto é muito grande nessas 24 horas de velório, o que contribui sobremaneira para o bem estar social!

O piadista é outra coisa que não pode faltar. O piadista é o cara que mesmo estando sofrendo com a morte do defunto, tem o altruísmo de falar coisas engraçadas (às vezes até as peripécias do defunto em vida!). O piadista, poucos sabem, tem um grande papel em nossa sociedade e na vida dos mortos, ou, melhor dizendo, na hora da passagem dessa pra melhor. Ele é um elemento ambivalente, uma espécie de palhaço trágico, que garante que mesmo na hora do sofrimento os entes queridos do defunto consigam rir um pouco, lembrar dos bons momentos da vida com o defunto, e até, quem saber, chegar à conclusão de que na verdade o dito cujo já vai mesmo é muito tarde (isso apenas em casos mais extremos, obviamente!)!

Antigamente também era comum a presença de mulheres carpideiras, que iam pra chorar sobre o caixão do morto. Era muito romântico, mas parece que ficou como uma coisa do passado! Em alguns casos temos também a presença do próprio morto avisando aos entes queridos de que morreu. É o famoso fantasma da alma recém-desencarnada! (aproveito esse espaço e aviso desde já que não farei essa sacanagem com meus amigos e familiares. Ao morrer, caso eu não desapareça por completo, prometo não puxar o pé de ninguém à noite e nem me manifestar como alma penada. Qualquer aviso que tenha pra dar, deixo por escrito aqui neste blog para conhecimento público, antes de morrer).  

É importante considerar ainda que o cidadão em desacordo com a condição de vivo, vulgarmente conhecido como defunto, tem direitos inalienáveis que devem ser garantidos! Falta-nos ainda uma declaração universal dos direitos dos homens e mulheres mortos, mas de certo que entre os direitos e deveres do defunto então a existência de um caixão, um buraco na terra pra ser enterrado, direito a não ser comido (a não ser em casos de acidentes de avião em regiões isoladas e geladas do globo e se forem europeus invasores de terras indo-americanas!), direito a feder, mesmo depois de tomar o último banho, e a apodrecer!

Mas, caros leitores, a essa altura do campeonato vocês devem estar se perguntando por que estou falando de tudo isso? Ocorre que hoje de manhã acordei com a seguinte frase na cabeça: “a morte é em verdade o grande momento da vida de qualquer pessoa!”.

Isso porque além de todas essas sociabilidades que já falei acima, a morte é também a grande chance para, caso exista céu, irmos ao encontro do onipotente, oniciente e onipresente! E caso não exista céu vamos simplesmente deixar de existir.

Ora meus caros, o que a maior parte das pessoas não percebeu ainda é que deixar de existir não é propriamente uma coisa má. Na verdade não é também uma coisa boa. Na verdade não é nada! A não existência não tem cheiro nem sabor, não dói nem dá prazer, não é audível nem é silenciosa, nem quente nem fria, nem doce nem amarga, nem azeda nem salgada, nem chuva nem sol, nem inverno nem verão.

A não existência é simplesmente o que ela não é, ou seja, não é, é nada, em sendo um não ser, o não existir, nada faz ou desfaz, somente é o seu não ser, o que nem sequer se pode definir!

Neste sentido, morrer do ponto de vista da sociedade que cerca o indivíduo morto é um bom negócio, por todas as benesses que já expus (piadistas, elogios ao defunto; sem contar outros temas como o crescimento da economia de caixões e flores, a possibilidade do viúvo ou viúva trocarem de cônjuge, etc.).

E do ponto de vista do morto, ele terá as possibilidades de ir para o céu ou simplesmente deixar de existir.

Não coloquei a categoria inferno ou diabo de chifres e tridente nesse debate, pois acho que esse papo de inferno é contemporaneamente uma invenção de Edir Macedo e Cia. E não vou dar ibope pra esse tipo de gente que dá mais moral para o diabo do que pra Deus! Sem contar que se deus existir mesmo, e se for um cara maneiro, ele vai chegar à conclusão de que foi ele quem colocou a gente nessa enrascada toda, e agirá com justiça e perdoará todo mundo para garantir a paz celestial eterna no paraíso. Bom, mas isso caso deus exista! Eu, de minha parte, ainda sou adepto da tese de que depois que a gente morre viramos “nada” mesmo!

Então meus caros, tendo em vista o exposto, diria que morrer não é tão ruim assim. E defendo a tese de que morrer é o momento mais importante da vida de qualquer cidadão! O que dá a nós, seres vivos, a grande vantagem de um dia deixarmos de existir, em superioridade às pedras, por exemplo, que estão condenadas à eterna existência, em decorrência da ausência da morte!

Essa é, portanto, mais uma vantagem que nós temos, e não uma desvantagem, como pode parecer à primeira vista.

Então, se você é como eu, uma daquelas pessoas que vai morrer algum dia, lhe desejo que aproveite a sua morte da melhor forma possível, pois que eu saiba ela só acontece uma vez na vida, digo, na morte, e por isso mesmo tem que ser valorizada!

Sem mais, nos encontramos por aqui. A não ser que eu, ou um de vocês, morra!

Amém, pra quem é de amém; sarava pra quem é de saravá!