Temporâneas…

Me impressiona um pouco, em parte do discurso militante, o excesso do “Eu”, da narrativa egocentrada, que projeta as lutas a partir de um “si” particularizado, hiper-individualizado e às vezes até fetichizado.

Um certo culto à performatividade de “corpos” individualizados, quase individualistas, mesmo quando fazem menção ao “corpo coletivo” . Um festejo do “Eu” que às vezes não quer que a festa acabe mesmo quando os outros “Eus”, a coletividade, o “Nós” não tem nada a festejar.

Parece que, sem o percebermos, fomos capturados por estruturas discursivas típicas do capitalismo coisificador, fetichizador e individualizador das sensibilidades.

Talvez derive daí a tendência atual em ressaltar as diferenças (que saem do campo coletivo e tornam-se praticamente brigas de indivíduos cheios de certezas!) e não as convergências críticas entre os grupos. A conflitividade dos egos dos debaixo torna-se o espetáculo generalizado para todos.

Ou, ainda, a lógica couch/auto-ajuda/empreendedora que muitos discursos militantes assumiram nos últimos tempos. Todos são empreendedores de sí, todos têm a receita de auto-ajuda de si, para sí, como modelo para o outro, todos são o couch de si mesmo vendendo a sua narrativa para os demais. A certeza de suas certezas é que alimenta o carater moralista dos discuros.

A pretexto de usarmos o performativo e o espetáculo como “pedagogia” para se chegar às massas (é o que dizem: falar a língua das “massas”), parece que acabamos alimentando a sede insaciável do ego frustrado que tenta sublimar o desejo pelo consumo de sua própria imagem, pela mercadoria de si (a mercadoria do militante ideal: moral e lacradoramente perfeito), ou seja: o fetiche.

Os discursos coletivos, do “nós”, que podem parecer um pouco fora de moda hoje em dia, ainda são o horizonte utópico que devemos buscar, independente das ferramentas que usemos (internet, Facebook, Tik Tok, Big Brother, etc,.).

Ou seja, não se trata da simples e pura crítica elitista aos meios, trata-se da refletirmos sobre as mediações que estamos construindo!

Afinal, qual seria o limite tênue, a fronteira borrada, entre o uso crítico que fazemos dos meios e o uso que os meios estão fazendo de nós?

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