O racismo e o ódio de classe são a “esquizofrenia”?

Neste mundo de maldades não tem mais o inocente. O que tem, isto sim, por todo o lado, é o esperto ao contrário”.

A frase acima é de Estamira Gomes de Sousa, uma mulher negra e pobre, que trabalhou durante décadas em um aterro sanitário no RJ, falecida em 2011. Sua história foi retratada no documentário que tem o seu nome, Estamira, dirigido por Marcos Prado.

Ela era louca, segundo os sabidos em loucura, esquizofrênica! Supostamente!

Mas era tão lúcida, que os memes que ainda hoje circulam sobre ela lhes definem como portadora de uma “lucidez delirante”.

Pois é, tem louco pra tudo. Assim com tem tudo pra todo tipo de louco.

Mesmo o louco, por mais louco que seja, participa em algum nível do processo de comunicação e comunga dos elementos da linguagem coletiva. O louco, por mais delirante que seja, pode potencialmente escolher algo dentro do repertorio ideológico/linguístico pré-existente no mundo dos “normais” que os cercam!

Eis o privilégio dos loucos! Ter a liberdade da loucura, o privilégio de manipular os códigos do mundo “normal” à sua maneira!

O “louco” só pode achar que é Napoleão Bonaparte pois, além de Bonaparte ter existido de fato, as narrativas sobre ele circularam o mundo todo. O “louco” só pode achar que é um viajante do tempo porque a viagem no tempo existiu nas narrativas do cinema, da ciência, das revistas em quadrinho, nas falas de boteco e demais lugares.

Nem um louco é uma ilha! Ninguém delira a partir do nada!

A Estamira, na sua loucura, teria “escolhido” esculachar com os sistemas das normalidades, assim como optou por filosofar, questionar, devanear, dizer frases do tipo:

“Vocês não aprendem na escola. Vocês copiam. Vocês aprendem é com as ocorrências. Eu tenho neto de 2 anos que já sabe disso. Tenho de 2 anos, que ainda não foi à escola copiar hipocrisias e mentiras charlatais”.

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E por falar em louco, estes dias tivemos um caso de loucura curioso:

Um sujeito de classe média alta, homem branco de 31 anos, após utilizar um serviço de entrega (um APP) começou a xingar o entregador, um jovem de 19 anos, negro e trabalhador. Dentre outras coisas, o agressor disse que o entregador tinha inveja daquele lugar (o bairro de elite onde morava) e de sua pele branca (como sugeriu pelo gesto que fazia com a mão), além de dizer que o entregador ganhava pouco, que era “analfabeto”, que não teria nem onde morar e vários outros tipos de humilhações.

Soube-se que este louco era louco pois, ao se apresentar à delegacia de polícia, seu pai teria apresentado um documento que comprovava que ele fazia acompanhamento para esquizofrenia.  Mesma doença diagnosticada para o caso de Estamira.

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 Longe de mim questionar a seriedade/gravidade do tema dos “distúrbios mentais” e da esquizofrenia. Esse é um tema sério, importante, e as questões psicológicas e psiquiátricas não são “frescura” e nem “coisas de quem não tem nada pra fazer”, como ouvimos por aí.

Num mundo perfeito todas as pessoas deveriam ter direito a saúde em geral, pública, gratuita, de qualidade e humanizada, inclusive no que diz respeito ao acompanhamento psicológico/psiquiátrico.

Mas sabemos que as coisas não são assim: atendimento psicológico e psiquiátrico é coisa cara no Brasil. Os remédios são caros. Existe incompreensão das famílias em muitos casos. E a população de baixa renda obviamente acaba sendo a menos assistida nessa área da saúde. Quando não são auxiliados de forma inadequada, com uma medicina autoritária, carcerária, pouquíssimo humanizada, como é denunciado à anos pelo Movimento Antimanicomial.

Nesse sentido, até no acesso ao acompanhamento adequado e humano, no caso das questões psicológicas e psiquiátricas, há uma hierarquia entre os loucos!

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Mas quero voltar a uma oura distinção: de como é curioso como cada louco tem a “possibilidade delirante” de indicar como se expressar a partir do repertório de signos linguísticos/culturais/ideológicos/sociais que o cercam.

Uns loucos acreditam que são o Napoleão Bonaparte.

Outros, que são viajantes no tempo.

Outros, como Estamira, filosofam e questionam o mundo ao redor.

E outros, como o caso do agressor do entregador de APPs, dedicam-se a espezinhar e humilhar trabalhadores precarizados, com xingamentos racistas e ódio de classe contra os pobres. Era sabido na vizinhança do agressor que ele costumava fazer o mesmo com outros entregadores e prestadores de serviço.

Será que este último caso se explica, pelo menos em parte, porque o louco tinha como repertório cultural mais próximo aquele de pertencimento a uma classe/raça que se entende como detentora natural de todos os privilégios existentes, contra o conjunto de pretos/índios/pobres/entregadores de APPs que os incomodam (à classe do agressor) quando não permanecem em “seu devido lugar”? O entregador de APPs deve ter incomodado por não “estar no seu devido lugar”, um bairro de elite e branco.

Por que o agressor não investiu contra o jovem entregador de APPs acusando-o, por exemplo, de ser um viajante no tempo ou um inimigo de Napoleão Bonaparte?

Pois é, nem todo louco é racista, mas tem muito racista delirante por ai! 

Sobretudo em tempos de fascistização da vida cotidiana e política, como se vê pela própria figura do presidente do país, Bolsonaro: um racista, machista, homofóbico, elitista e obscurantista… delirante! (mesmo que agora o presidente apareça fazendo discurso antirracismo pro seu eleitorado ver – mais um delírio, um delírio cínico!).

Eu, na minha loucura (cada um com a sua!), fico a me perguntar se Estamira, a louca, por exemplo, agiria com tamanha arrogância frente a um entregador de APPs, um trabalhador precarizado e sem direitos, como ela mesma foi.

Meu delírio me diz que ele nunca faria isso, pois transmutou sua dor e sofrimento em uma “cultura política delirante” do questionamento crítico das estruturas.

Ora, nem todo louco é crítico e libertário, mas tem muito libertário e crítico… louco… por ai!

Seja como for, acho que Estamira teria uma resposta para todas essas questões que esse último acontecimento, o do racista delirante, nos traz agora.

Ela diria:

“A culpa é do hipócrita, mentiroso, esperto ao contrário. Entendeu? Que joga apedra e esconde a mão!”.

Pois essa é Estamira Gomes de Sousa, portadora de uma maravilhosa lucidez… delirante!

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