Carcomida

Poema do livro novo. Em breve nas mais marginais das livrarias... ou carcomido pela crítica roedora dos ratos e baratas. 
Aguardem!

A boca aberta e a colher ameaçadora.

A boca aberta e a farinha, o arroz e o feijão duros, brutos, caros!

A boca aberta e a água suja, mercúrio, bílis, amarga.

A boca aberta e o prato ralo, raso, de marrom transparente, frio e duro.

O olhos rijos e o medo ao lado, em volta, atrás, acima, abaixo, dentro, fora, frio, transparente, onipresente!

Os olhos rijos e o desespero calmo, ciente de que ele mantém o controle.

Os olhos rijos e incrédulos, a realidade crédula e realista.

O corpo imóvel e o mundo dissolvendo, ao lado, abaixo, acima, dentro e fora.

Os ouvidos estourados do grito seco, que agora é mudo, mas ainda fala, mas ainda grita e treme o chão e esmaga o dorso, os ossos e a carne e explode a cabeça.

O nariz seco, empoeirado, sujo, enxofre, fumaça, congestionado, poluído, morto.

A pele pasma, não dói, não arde, esquálida, morta, escama, poeira, pó.

A boca aberta e a farinha, o arroz e o feijão duros, brutos, caros, adentro…

A boca aberta e faminta que come, mas não sente.

A boca aberta que come e grita, mas não fala, não berra, não sente…

A boca aberta é o abismo.

À boca aberta cai o vil alimento, matéria prima, commodities, madeira, ferrovias, portos, ouro, bauxita, soja, gado, laranja, alumínio, enxofre, café, gasolina, petróleo, argamassa, automóveis, rodovias, aeroportos, hidroelétricas, nióbio, motosserras, gás, montanhas derretidas, rios poluídos, cana, borracha, latifúndios, chacinas, camburões, viaturas, favelas, garimpos, milícias, fascistas, empreendedorismos, apps, carvoarias, transmissores e componentes, foguetes…

Todos os atos geram desespero.

E o desespero gera a boca aberta, escancarada, que come… carcomida!

O pastor, o bumbo e o falo triste

Em breve pretendo lançar meu segundo livro de poemas, que ainda não tem nome. Depois de um tempo com este blog sem atividade, retomo-o hoje, já antecipando alguns escritos do futuro livro. Em breve mais novidades. Saravás! 

O bumbo do pastor miserável, de som puído e sórdido,

Ecoa na rua triste e úmida,

De cabeças taciturnas e caídas.

Embala com timbre grave

A gravidade daquelas vidas.

Tirésias do gueto imundo,

Profeta de ratazanas e jijus – Enquanto tamuatás, piramboias e mussuns roçam suas canelas magras!

Na viela torta de chuva desesperançosa,

Meio limbo, quase um inferno morno na terra,

A miséria da desenperança fala línguas estranhas.

Desde as entranhas de homens-medo, homens-falo, homens-broxas, homens-querentes…

Negadores das dores e dos prazeres impronunciáveis,

Até mesmo nas línguas estranhas de um Yahweh qualquer:

– É Satanás!

– É sim!… É Satanás!

Bate o bumbo, dá piruetas, gira, sublima o gozo sórdido e farto, a fratura, a língua seca e trêmula,

deficiente!

– Foi Satanás! Foi… Foi Satanás!

– Satanás está à frente, ao redor, atrás!

[Foi Satanás que nos deu o gozo!]

[E foi Deus que vos deu o medo!]

O bumbo toca, a voz frita, o pulmão retorce, as carnes vibram, os paus ululam, as bucetas cospem, o corpo goza, o medo se afugenta… Deus não viu…

Mas o pastor roto, torto, curvo, de turvo pensar, gozou!

Garantiu mais um dia de sobrevida perante o medo!

O medo…

este sim, onipresente e onisciente

O verdadeiro deus dos miseráveis!

Bar do Chico, do Pedral, na TF…

Chico, o dono do bar: – Fala meu consagrado! Como vai? Não vai nada hoje, não?

Você, caminhando deboisticamente na rua: – Ôpa, como tá? Hoje não. Tô só de passagem hehehe

Chico, o dono do bar: – Sério mesmo? Nem umazinha?… Olha lá!…

Você, já se despedindo e seguindo sua viagem: – Hoje não, companheiro. Fica pra próxima…

Chico, o dono do bar: – Vem cá! Espera ai… [entrando no bar e retornando depois de alguns segundos com uma cerveja na mão…] Toma, pra ti… depois tu me pagas…

Munido da breja estupidamente gelada na mão, você segue seu caminho, confiante na humanidade e certo de que sim!… um dia os humilhados serão exaltados…

[História baseada em fatos reais ocorridos numa esquina qualquer de Belém do Pará, na última quinta-feira]

Do carimbó ao brega

Nos anos 1970, quando o carimbó havia transbordado das margens e acessado a indústria cultural local e em parte a nacional, o gênero tornou-se popular nas festas jovens da época. Do “pau-e-corda” ao carimbó “eletrônico”, de Verequete a Pinduca, tudo rolava nas festas do São Domingos à Assembleia Paraense.

Paralelamente, os “sonoros”, depois conhecidos como “aparelhagens”, que têm sua história remota em 1941 (com as “rádios de subúrbio”), tocavam gêneros “latinos”, sambas abolerados, jovem guarda, “música cafona” (termo comum nos anos 1970) e depois o “brega” (termo que vai substituir o termo “cafona”, nos anos 1980). E as mesmas aparelhagens tocavam sem parar, também, o carimbó.

Nessa época, alguns “conjuntos”, que animavam as festas periféricas, colocam em seu menu: cobertura sonora do evento festivo com “conjunto de carimbó” pau-e-corda e, se o cliente desejasse, com som mecânico.

Alguns reclamavam, outros gostavam desse estilo ou daquele, mas todos os sons vinham da mesma origem: as culturas periféricas de Belém do Pará, como território de incorporação e posterior (re)di-fusão dos vários tipos musicais do “povão” (inclusive do povão latino-americano).

Nós dois casos, carimbó e “música povão” ou “brega”, alguns artistas conseguiram por um tempo acessar a indústria cultural local (circuito de aparelhagens, rádios, TVs e gravadoras, como a Gravasom) e nacional, marcando seus nomes na tradição popular folclorizada ou na tradição popular-povão. Mas muitos outros, a maioria, permaneceram num circuito local e periférico: fazendo carimbós nos terreiros de chão batido ou fazendo a cobertura sonora nas gafieiras da periferia, tocando em barzinhos ou animando festas com músicas da moda do momento (tradição essa que vem dos grupos de “jazes”, passando pelas “bandas de baile”, “conjuntos” até o voz e teclado).

Mestre Vieira, por exemplo, tocou chorinho nos anos 1950, quando era o “Joaquim do Bandolim”, teve aparelhagem nos anos 1970 (aproximadamente) e criou um estilo popular-povão/música de gafieira que mais tarde seria chamado de “guitarrada” (hoje cultuado pelas vanguardas). Mas em sua época esteve quase sempre na margem da indústria cultural nacional, apesar de imerso na média indústria local.

Pinduca, idem: de maraqueiro/ritmista de banguês e conjuntos em Igarapé-Miri à “rei do carimbó” (“moderno”) e produtor musical de inúmeros bregueiros dos anos 1980, na Gravasom.

Verequete fazia samba e todos os gêneros que circulavam nas rádios, discos e “eletricidade”, além do “legítimo carimbó”; assim como o Mestre Cupijó, que se criou ouvindo “mambo” das “rádios cubanas” que chegavam a Cametá, além de ter “eletrificado” e “modernizado” os tambores afroameríndios que conformariam o siriá.

Moral da história: a cultura musical popular e das margens é o caldeirão de onde vem o carimbó, pau-e-corda e o “elétrico”, os sonoros e as aparelhagens (as sound systems que aqui são, talvez, mais antigas que na Jamaica), lambadas, guitarradas e siriás, bregas, tecnobregas e melodys, as pequenas aparelhagens que são transportadas de popopô nos riozinhos da Amazônia até as poucas “grandes aparelhagens”, que constituem apenas uma fração da indústria cultural local.

Por isso, cuidado, pois pode acontecer de você estar tomando uma breja no Ver-O-Peso, dis-traído pelas pulsações da música que o povo cria, e o “controlista” malandramente tocar de Verequete à Vieira, de Solano à Chimbinha, passando pelo Felipe Cordeiro, mandando um “ao por do sol”, um “gererê”, Gaby Amarantos e Dona Onete… e você pode nem perceber que curtiu tudo isso… E que a cerveja estava estupidamente gelada e que, ao final, tudo combinou!

O pequeno fascista

Descobriram que o Bolsonaro é, antes de tudo, um incompetente. De grande limitação intelectual, visível dificuldade de articular ideias e falas, com várias taras, traumas e inconstâncias derivadas de pulsões sexuais reprimidas. Um idiota.

Mas, antes de tudo, um incompetente!

Nunca foi um gênio do mal. Sempre foi um idiota do mal, que foi alçado ao centro do poder por um quase “acidente histórico” (o vácuo no poder dentro do Estado burguês provocado por uma crise de amplas dimensões).

Porém, um fascista de verdade, coerente com o fascismo que sempre defendeu a vida toda. Nunca blefou. Sempre foi o pior da política, sempre foi um escroto, golpista, fascista, miliciano periférico, pequeno. Mas antes de qualquer coisa, um incompetente. Um fascista e, além de tudo, um incompetente.

Parece que até mesmo alguns bolsonaristas, ou parte deles, perceberam que o Bolsonaro é um incompetente.

Mas ninguém deve comemorar tudo isso que está descrito acima, caso concorde comigo. Pelos seguintes motivos:

  • O fascista e incompetente ainda está lá. E vai continuar sedo que sempre foi: fascista e incompetente.
  • O mudo social que elevou Bolsonaro do baixo clero e o colocou na presidência ainda existe. E a elite econômica que, mesmo não o tendo como opção A, ganhou com seu governo, não vai largar o osso fácil.
  • Por fim, para todo fascista tem um fascismo. Para todo Bolsonaro, por mais incompetente que seja, existe um bolsonarismo. Mais forte ou menos incompetente, quem será e qual o poder que terá o próximo candidato a Bolsonaro da vez? Das hordas bolsonaristas alguns já até foram lançados como sucessores, tal como o tal do Zé Trovão… E o partido militar o que anda planejando?

No tempo curto da política, quem não faz leva e tudo pode acontecer. Inclusive nada. E o nada, para nós, continua sendo um deprimente cenário.

O tempo curto do golpe que não foi

Hoje se sabe que havia um golpe de fato em andamento, na madrugada do dia 6 para 7. Evitado, tudo indica, pela rapidez do STF em emparedar os generais, antes que a cena golpista tomasse conta das ruas de Brasília e a PM do DF “cedesse” voluntariamente ao caos.

Foi um quase golpe, mas mesmo assim, foi uma tentativa e não um “blefe” como alguns analistas diziam.

Isso prova algumas coisas:

  1. Que Bolsonaro não blefa, seu problema é ter ou não ter força. Agora Bolsonaro não conseguiu estabelecer um golpe, mas sua agenda é essa e seu governo, se continuar, será sempre a manutenção dessa atmosfera golpista (como sempre foi na verdade, desde o início).
  2. Bolsonaro “perdeu o timing”, mas deixou os bolsonaristas na rua, ativos, delirantes e, tudo indica, sem líder. Mostrou-se um fraco em não os guiar ao que foi prometido.
  3. Seja por sua fraqueza ou, contraditoriamente, seja por seu golpismo em potência e delírio endêmico, só há um caminho para o país: a renúncia ou impeachment e prisão do fascista!

O problema é saber o quão fracos, desorientados ou decididos do seu papel histórico estarão os outros sujeitos desse cenário:

a) A esquerda, que deveria ir pra rua imediatamente em resposta ao golpe frustrado (mas até agora nem pauta própria tem e ainda está a decidir se adere ou não à pauta da direita liberal no dia 12).

b) E o que restou do sistema formal: Parlamento, STF etc.

Estamos no tempo curto da política. Quem perder o timing perde espaço. Parece que os próximos dias serão decisivos.

#NãoTeveGolpe? Ou o “golpe está ai, só cai nele quem não o derrubar primeiro”

Não dá para comemorar o mais do mesmo! É necessário irmos mais. Hoje é 8 de setembro, não teve golpe, mas também não deixou de ter!

Vi que muitos companheiros e companheiras já levantaram a hashtag #NãoTeveGolpe para comemorar o fato de que ontem, 7 de setembro, não houve um golpe em termos clássicos, com tanques na rua, militares reprimindo a população, prisões, fechamento do STF e Congresso etc.

Me somo a esses companheiros e repito: #NãoTeveGolpe.

Mas fico com uma leve impressão que compartilho com vocês: o mais adequado seria, de fato, a hashtag #NãoTeveGolpe ou a hashtag alternativa: #UfaNãoHouveGolpe ?…

A pergunta perece ingênua e a diferença pequena, mas não é tão pequena assim.

Pois vejamos:

– Bolsonaro, mesmo estando em um momento de desgaste, perda de credibilidade em suas bases populares e até mesmo em setores da burguesia nacional, conseguiu levar milhares de pessoas para a rua;

– Bolsonaro não deu um golpe mas disse, e com certeza deve acreditar no seu próprio delírio, que começou um novo momento da história do país e que o STF não tem mais credibilidade nenhuma. Ele deu o seu recado e fez um ato político com muitas ilegalidades, mais uma vez. E continua lá;

– Muito provavelmente Bolsonaro fez todo esse reboliço em parte financiado com dinheiro público, o que em si já merecia seu afastamento (mais uma vez). E usou dinheiro privado que ainda não sabemos de onde veio. Mas o fez, mais uma vez;

– Bolsonaro parece ter conseguido dar um pouco de “gás” para suas bases populares que pareciam estar esmorecidas nos últimos meses. Dizer que teve menos gente do que o previsto não anula o fato de que teve milhares de pessoas indo à rua. Inclusive caravanas de vários estados do Brasil rumo a Brasília e mesmo atos menores em cidade pequenas do interior do Brasil, com carros-som, motociatas etc. Não se enganem com a foto que circula na rede com a imagem de Brasília e a hashtag #flopou, indicando que as manifestações teriam sido um fracasso. Podem não ter sido o grande sucesso esperado pelos fascistas, mas ainda assim apresentaram um público significativo;

– Aceitemos, Bolsonaro fez a pauta: tornou (mais uma vez) o 7 de setembro uma data da extrema direita “patriótica” e mofada. Não que essa data tenha sido em algum momento um símbolo da resistência popular, das lutas sociais etc. Mas, não nos enganemos, símbolos como a bandeira do Brasil, a “pátria” etc., são sim símbolos populares e milhares de pessoas vão todos os anos assistir os desfiles militares por gostarem da festa “cívico-militar” e por terem esses desfiles (inclusive os desfiles escolares da época) como elementos importantes das suas culturas populares. Bolsonaro usou e abusou dessa simbologia e, em boa parte, pautou a rua neste dia. [PS.: Isso não tira o mérito de quem fez o contraponto indo à rua. Na verdade valoriza mais ainda a papel de enfrentamento dos Gritos dos Excluídos e Excluídas de ontem];

– Um último ponto: para mim o golpe já está entre nós, em termos práticos e simbólicos, desde pelo menos dois momentos: 1) Em 2016, por motivos óbvios. 2) Quando o termo “golpe” passou a circular livremente na gramática política nacional (televisão, internet, rádio, falas parlamentares, falas judiciárias, falas do genocida, falas cotidianas da população etc.) sem causar horror, repulsa coletiva imediata e reação contrária imediata.

Ou seja, (mais) este ato de discurso golpista (efetivado ou não) mantém uma tendência e mantém o fato de que o governo Bolsonaro segue fazendo o que se propõe fazer, coerente consigo mesmo, fascista, delirante e autoconfiante! E segue realizando boa parte de sua pauta de destruição dos direitos e pilhagem das riquezas nacionais (que tem apoio de parte significativa da elite que mesmo não o tendo como plano A ainda o vê como necessário, até aparecer algo melhor para a direita e que possa competir com o Lula, por exemplo). E as demais “instituições”, a reboque, uma vez que até aqui, de fato, não impediram que as permanentes ameaças criminosas de um golpe continuassem.

Por isso, apesar de não ter dado um golpe de fato, Bolsonaro fez muito, muito barulho. Se ele está em um momento de maior fragilidade e perdendo forças, de um lado, segue atacando (coisa aliás que sempre fez e sempre fará) e mostrando para a direta liberal, para a esquerda em geral e para todos, que não é carta fora do baralho.

Ou vocês acham que, agora que não deu um golpe, Bolsonaro vai se acomodar e viveremos uma linda fase pós-quase-golpe, tempo do #NãoTeveGolpe e império dos memes festivos?

Em outros termos, o Bolsonaro continua lá, fazendo o que sempre fez, amaçando golpes, e isso por si só já é um fato criminoso, tenha ele realizado ou não o golpe. Com Bolsonaro, o golpe sempre esteve, sempre está e sempre estará aí, pairando no ar.

O golpe está aí, só cai nele quem não o derrubar primeiro!

Belém e sua relação desamorosa com as áreas verdes

Um fenômeno que sempre me intrigou em Belém e que acho que deveria ser estudado antropológica, sociológica e historicamente, de modo a contribuir para o poder público agir/intervir e tentar mudar:

– O desapego da população de Belém com a coisa pública, particularmente os espaços relacionados ao verde, ao meio ambiente. E o desapego da população à coisa privada relacionada também ao verde e ao meio ambiente.

No caso do desapego com a coisa pública, particularmente com áreas verdes, espaços com árvores, jardins etc. possivelmente o fato se explica pelo consumismo, privatização/patrimonialização dos espaços/serviços coletivos, elitismo e fobia de classe ao “povo” e à rua etc. Todos essas, características da sociedade brasileira, capitalista periférica, em geral: que fazem com que a classe média prefira o shopping à praça e evite a rua por causa da “criminalidade”; além de privatizar aquilo que deveria ser coletivo, por exemplo construindo calçadas privatizadas, estacionando na ciclovia, estacionando em praças, jardins e, quando vão para o veraneio, o estacionamento na areia da praia etc.

E aí entra o típico fetiche do automóvel do belenense, também um elemento do consumismo em geral, mas que pra mim é muito mais grave em Belém do que em qualquer outra cidade brasileira.

O belenense típico tem verdadeira idolatria ao seu carro, prioriza que o veículo seja estacionado a meio metro de onde o seu dono vai ficar, tanto faz que fique sobre um jardim, sobre uma ciclovia, sobre uma faixa de pedestre, sobre a vaga do cadeirante, dentro da praça onde crianças brincariam. Tanto faz! O carro tem que passear colado ao dono, quase como se fosse um cachorrinho na coleira. Não é à toa que o belenense típico detesta pagar impostos, odeia mais ainda pagar o IPTU, mas adoraria que a Prefeitura fizesse estacionamentos para seus carros em todas as ruas, calçadas, praças, etc.

Exemplos do desapego da população com os espaços verdes públicos, temos muitos:

1. Até pouquíssimo tempo a Praça do Carmo tinha virado estacionamento, todas as noites. Lembram? Foi necessário colocarem barreiras físicas para que os motorista se ligassem de que dentro da praça não poderiam estacionar;

2. A Av. 25 de setembro, com um belíssimo canteiro central com árvores, totalmente abandonado, sujo e cheio de carros estacionados;

3. O Horto Municipal, que mesmo sendo uma praça cercada, para crianças, tem uma parte interna de sua área feita de estacionamento;

4. Novos parques e praças que são construídas tendo praticamente metade da área, que poderia ser verde e de lazer, feita de estacionamento para os “clientes” automobilizados. Esse é o caso do Portal da Amazônia onde os ciclistas, skatistas, crianças, idosos e pedestres competem com os carros estacionados. E a nova praça Porto Futuro, que além de ter sido entregue à população inacabada, quase não tem arborização e tem um imenso estacionamento que é quase do tamanho da praça propriamente dita, área essa que poderia ser espaço verde de uma cidade onde o sol não brinca em serviço….

5. Outros exemplos não faltam… Basta andarmos por Belém que veremos lixo sendo jogado nos espaços verdes ainda existentes, carros estacionados por todos os lados, árvores sendo derrubadas e nenhuma sendo colocada no lugar, mangueiras sendo envenenadas para morrerem “sozinhas”, etc.

O desapego com as áreas verdes e “naturais” de Belém chega à margem do surreal. Vou dar um último exemplo:

– Certa vez estávamos no Horto Municipal com nossa filha e o funcionário estava insistentemente molhando a areia da área do parquinho com uma mangueira. Ele foi molhando tudo até que não restou quase espaço onde minha filha estava brincando, então perguntamos porque ele estava molhando a areia da parte onde as crianças brincavam. E ele disse que os frequentadores reclamavam que a areia do parquinho fazia muita poeira e incomodava as crianças; dai que ele molhava a areia do parquinha para ela ficar menos empoeirada…

Isso mesmo: a areia estava empoeirada!

Onde já se viu, em Belém, um parquinho com areia empoeirada!

Por último, o outro ponto que me deixa ainda mais intrigado em Belém é o desapego que as pessoas têm pelas áreas verdes em suas próprias casas, um espaço para jardim, por menor que seja, ou mesmo um quintal (cosia rara hoje em dia em Belém – devido à pobreza/favelização, de um lado, e à especulação imobiliária, de outro). O desapego que essas pessoas têm por essas áreas que são exclusivamente suas, que já são privadas. É impressionante vermos as pessoas cimentarem seus quintais, derrubares as árvores para “limparem” o terreno e, muitas vezes, não plantarem nem uma samambaizinha humilde para deixar verde o ambiente. Isso é algo muito comum em Belém. Já vi inúmeros “quintais” totalmente cimentados, “lajotados”, desérticos, tendo uma boa área onde poderiam existir árvores de médio e até grande porte. Mas não há nada, só cimento!

Dou mais um exemplo pessoal: minha filha já estudou em uma escolinha que tinha uma árvore no quintal/área de recreio. Tempos depois a diretora derrubou a árvore, alegando que “sujava” o ambiente e que as raízes quebravam o calçamento da área etc. Meses depois a mesma diretora fez uma coleta com os pais para construir uma cobertura na área, pois (vejam só!), ficou quente demais depois que derrubaram a árvore… Bingo!

Esse é um fenômeno interessante pois se trata da mesma cidade onde todo mundo, todo santo dia, reclama do calor infernal… Esse desapego ao verde em Belém, que claro, se explica muito pelo consumismo, elitismo, fobia das elites ao “povo” e coisa pública, patrimonialismo, fetiche do automóvel, fetiche ao shopping center e a tudo que tem vidro e ar-condicionado etc. é grave. E certamente tem explicações locais que realmente eu gostaria de entender.

Nem todas as cidades grandes têm essas características. Inclusive cidades que no imaginário social são vistas como “selvas de pedra” a população às vezes faz de tudo para manter uma pequena área verde que ainda resta. Aqui é o contrário.

Realmente eu gostaria de entender a lógica desse fenômeno, como chegamos a isso e como isso poderia ser revertido pelo menos em parte por políticas públicas.

E nós ainda estamos “cercados de verde”, como dizem por ai… “Cidade das Mangueiras”… supostamente.

Pelo menos até que se asfalte todo o Utinga, se assorie e polua todo o Cumbú, derrubem os canteiros centrais de ruas como Duque, 25, Marquês, para construção de mais vias de asfalto e se faça paisagismo com “arquitetura desértica” na Praça da República e Batista Campos…

Mas a culpa do calor infernal é do sol!

De quem mais seria?…

Amazônia: histórias, culturas e identidades

Organizei, juntamente com os colegas Telmo Araújo e Jairo Silva, da UEPA, uma coletânea de artigos sobre a história da Amazônia. Abaixo segue a apresentação do livro, escrita pelos organizadores.

O livro pode ser baixado clicando AQUI.

Boa leitura.

APRESENTAÇÃO

A coletânea que ora apresentamos é resultado das atividades do GPAM, “Grupo de Pesquisa Amazônia: História, Culturas e Identidades”, grupo em atividade desde o ano de 2016. O livro reúne trabalhos de historiadores e historiadoras que fazem parte do grupo e que atuam como docentes no curso de História da Universidade do Estado do Pará (UEPA), assim como de ex-alunos que tiveram suas pesquisas vinculadas ao referido grupo de pesquisa.

A maior parte dos textos é fruto de reflexões e debates ocorridos nos eventos sucedidos na Universidade do Estado do Pará, organizados pelo GPAM e pelo Curso de Licenciatura em História, tais como o “Seminário de História”, realizado anualmente, que em 2019 chegou à sua 5º edição. Os trabalhos apresentados mostram a diversidade de estudos existentes nas Linhas de Pesquisa do GPAM, que atualmente se subdividem em três principais campos, à saber: Culturas, cidade e trabalho; Culturas, etnias e identidades e; História, ciência e ensino.

O crescimento do interesse da historiografia sobre as múltiplas experiências sociais determinou a escolha do grupo pela área de concentração em História Social, na qual se busca problematizar lutas, disputas e contradições existentes em diferentes experiências urbanas e rurais, em vários territórios e temporalidades, no contexto amazônico. Assim, os estudos desenvolvidos pelo GPAM têm dado ênfase à diferentes perspectivas sociais, incluindo experiências e culturas nem sempre ou pouco observadas pela historiografia “tradicional”. Elegendo a História Social como área de concentração, a proposta de trabalho do grupo de pesquisa encontra subsídios para valorizar outros sujeitos históricos, reconhecendo a heterogeneidade de experiências sociais de homens e mulheres, de diferentes etnias e gerações, todo o conjunto de práticas e expectativas sobre a totalidade da vida. Buscando-se, assim, democratizar o conhecimento do passado, enfrentando os múltiplos desafios contemporâneos da pesquisa.

O campo de análise, como já expresso no termo inicial do título do GPAM, é a Amazônia, em particular a Amazônia oriental e paraense. A Amazônia é vista em sua diversidade de experiências históricas e campos de lutas sociais que se apresentam em vários âmbitos da vida social, tais como as dimensões da cultura, das culturas populares, etnias e racialidades, cidade e trabalho, ciência e ensino. Por consequência, os textos contidos neste livro apresentam muitas amazônias possíveis, muitas experiências de um território de muitos territórios, recortado de desigualdades e diversidades.

Desta forma, o leitor ou leitora que folhear as páginas que aqui apresentamos terá a oportunidade de conhecer a Amazônia de mulheres divorciadas, solteiras ou viúvas de Belém da primeira metade do século XIX; assim como a Amazônia das práticas terapêuticas e da intervenção do poder público em relação à varíola ou ainda da relação e tensão entre medicina homeopática e a religião espírita no Pará, nos dois últimos casos já no início do século XX. Poderá conhecer um pouco sobre a Amazônia do mundo da educação formal e de como disciplinas como física e química eram ensinadas no Instituto Lauro Sodré, em Belém, no final do século XIX e início do XX; a experiência histórica de imigrantes retratadas em processos criminais, também no início do século XX; reflexões de intelectuais sobre a identidade nacional e amazônica nas páginas de revistas semanais paraenses do século XX e também reflexões sobre os conceitos de memória e de patrimônio a partir de acervos pessoais de Vicente Salles e de Dalcídio Jurandir. A Amazônia da cultura e modos de vida de ribeirinhos da Comunidade de Igarapé Grande, em Ananindeua, ou ainda da cultura popular e musical do carimbó e de outros gêneros musicais locais e globais, também estará presente neste livro. Por fim, a Amazônia das lutas populares e sociais emerge na história de conflito da Gleba Cidepar, na região do Guamá; na organização e na luta camponesa do Baixo Tocantins ou ainda na experiência da Pastoral da Juventude e das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) nos bairros de periferia de Belém, na segunda metade do século XX.

Temos em mãos, portanto, uma obra com muitos olhares, muitos temas para muitos leitores e leitoras. Apresenta-se um panorama tão diverso e rico quanto a própria região que é retratada nesta coletânea de trabalhos. Desejamos que os textos a seguir configurem-se, assim, como uma porta de entrada para o conhecimento histórico sobre as múltiplas amazônias, ou ainda um reforço na produção científica já existente sobre essa região.

Boa leitura a todos e todas!

Os organizadores”.

Futuridades

O futuro talvez seja o fato mais emblemático da potência e da complexidade.

É esperança e morte, fatalidade e vida, distopia e crença, incerteza e utopia!

É o fato que ainda não houve, mas haverá.

A certeza de que todo o improvável é possível! Mesmo que nada ocorra.

Esperança que carrega até mesmo o terreno do mais absoluto niilismo. Um niilismo que nunca morre, pois sempre haverá um futuro.

É o que nos move por esperança e utopia, sem garantia de nada realizar.

É um outro agora desejado, um outro agora projetado, um outro agora que nunca será, pois o futuro só existe no depois.

Porém, a crença no futuro, que será, e por isso mesmo já o é em potência, nos move e, ao mover-nos, move o futuro para ser exatamente aquele novo e inédito, que virá a ser…

Nenhum futuro é o que teria sido, pois o futuro, tão presente, nunca é, sempre será.

O agora está, no fundo, cheio de futuridades, cheio de esperança de futuro.

O futuro já está fertilizando nossas agoridades. O agora está prenhe de futuro.

E o futuro está, de fato, cheio de agoridades, cheio de querências de agoras melhores, cheio de restos de agoras que insistem em sobreviver, enquanto o novo, que tudo inaugura, insiste em nascer.

A esperança não é vã: é um fato!

É tão factual e concreta quanto o futuro, que esperançamos e que virá…

A esperança é um futuro super-agorizado. Um futuro preso nas grades sólidas e cruéis do hiper-agora, mas desejoso de fugir, desejoso do devir, desejoso do que virá: o seu outro eu, a se inaugurar.

A esperança sabe que o futuro virá, para além de qualquer vontade, mas nunca imune à vontade alguma, sempre maior e diferente do que propusemos, mas nunca alheio ao devir humano!

A História não acaba… a esperança expecta e é práxis e o futuro dirá.